Estudo indica que estresse financeiro pode causar problemas no coração 

Segundo um estudo da Mayo Clinic, dificuldades financeiras aumentam o risco de morte e impactam diretamente a saúde do coração.

Luisa Oliveira 

Um estudo divulgado pela Mayo Clinic no mês passado indicou que o envelhecimento do coração vem acontecendo mais rápido nos últimos anos devido a problemas financeiros. A pesquisa foi realizada entre os anos de 2018 e 2023, com mais de 280 mil pessoas acima de 18 anos, em Minnesota, Arizona e Flórida. 

A pesquisa comparou o tempo de envelhecimento do coração, entre o tabagismo e o estresse crônico causado pelas dificuldades financeiras. O estudo revelou que preocupações financeiras e insegurança alimentar podem acelerar o envelhecimento cardíaco tão intensamente quanto fatores como hipertensão, tabagismo e diabetes.

Após a realização de toda a pesquisa, concluiu-se que pessoas com dificuldades financeiras apresentaram um risco de morte 60% maior em dois anos, superando até o risco de quem já teve um infarto.

Estresse financeiro no Brasil 

De acordo com o último Mapa da Inadimplência e Renegociações de Dívidas  publicado pelo Serasa neste mês, o país teve recorde de pessoas endividadas nos últimos 10 anos. Carregando um aumento de 38,1% no número de endividados, piorando de 59,16 para 82,8 milhões de pessoas. 

Segundo o mapa, a média de dívidas mensais de cada brasileiro é de R$6.728,51, e o valor de cada dívida gira em torno de R$1.647,64. Os principais segmentos de dívidas são cartão de crédito, contas básicas, como água, luz e gás e serviços agregados como internet. Os brasileiros que mais sofrem com este estresse por dívidas são mulheres  de 41 a 60 anos. 

No mesmo mês, o Datafolha também publicou uma pesquisa mostrando que 59% dos brasileiros dizem que sua renda é insuficiente para pagar todas suas despesas. O levantamento também mostra que 73% dos brasileiros que ganham até 2 salários mínimos veem a renda como insuficiente. 

Dos que ganham de 2 a 5 salários mínimos, 49% responderam que a renda é pouca. Já entre os que recebem mais de 5 salários, 32% disseram que não ganham o necessário. Sendo assim, 45% de todos esses buscam formas de complementar a renda, principalmente os com maior escolaridade.

Somado a isso, o Datafolha confirma que os custos para manter o status de classe média (dívidas educacionais, padrão de consumo, pressão social) corroem o salário de quem estudou mais, gerando a necessidade objetiva de buscar outras fontes de renda.

O que o estresse financeiro faz  no coração?

Para o médico assistente do departamento de emergência do InCor, doutor Thiago Scudeler, os efeitos do estresse financeiro sobre o coração vão além do que os olhos clínicos tradicionais conseguem captar.  Por exemplo, o coração envelhece antes do tempo, afirma o doutor.

O médico explica que eletrocardiograma com inteligência artificial, utilizado no estudo da Mayo Clinic, mostrou além do número de batimentos cardíacos por milissegundos, ele estimou a idade biológica do coração que nem sempre coincide com a idade real do paciente. “O coração pode estar mais velho do que a pessoa”, diz o médico. Doutor Scudeler mostra que quando existe essa discrepância, o organismo ainda não apresenta uma doença instalada, mas o sistema cardiovascular já acumula desgaste silencioso. 

Segundo o doutor Scudeler, as consequências clínicas dessa diferença são concretas sendo elas o risco aumentado de insuficiência cardíaca, arritmias e eventos isquêmicos como infarto e AVC. 

De acordo com o médico assistente do departamento de cardiologia da UNICAMP, Diego Antoniassi, o estresse atinge o coração em várias frentes ao mesmo tempo, são elas  hormonal, inflamatória e, principalmente, comportamental. “Quem está muito estressado dorme pior, se alimenta pior, faz menos exercício  e às vezes recorre a cigarro ou álcool. O estresse acaba puxando vários outros fatores de risco junto”, explica.

O efeito não poupa nem os mais jovens. Segundo o cardiologista, palpitações e pressão elevada já podem aparecer cedo, mas o maior perigo é silencioso os anos de estresse acumulado aceleram o desenvolvimento de doenças cardiovasculares muito antes de qualquer sintoma aparecer. “O infarto geralmente vem depois, mas o caminho começa bem mais cedo”, alerta doutor Antoniassi.

E não adianta cuidar só de um fator isolado. O doutor Diego reforça que o risco cardiovascular é sempre um somatório de alguém que não fuma, mas vive sob pressão e problemas de estresse financeiro  constante, dorme mal e se move pouco, pode chegar ao mesmo nível de risco que um fumante ao longo do tempo.

Estresse financeiro é pior que o tabaco?

O cardiologista doutor Scudeler explica que ainda não é possível comparar totalmente o tabagismo com o estresse financeiro. “Não há evidência suficiente para colocá-lo no mesmo nível de um fator causal direto como o tabagismo. Mas há base crescente para considerá-lo um ‘risk modifier’ de alto impacto”, afirma.  O médico afirma que cigarro ainda é o fator de risco com a relação causal mais documentada na cardiologia, e seus mecanismos são claros: inflamação, disfunção das paredes dos vasos sanguíneos e estresse oxidativo, com efeito proporcional à quantidade fumada. 

O estresse financeiro, por sua vez, age de forma menos direta, mas persiste de maneira igual. Ele ativa de maneira crônica o sistema de estresse do corpo, elevando de forma sustentada os níveis de cortisol e adrenalina, reduzindo a variação de batimentos do coração danificando comportamentos protetores essenciais como a adesão ao tratamento, a qualidade da alimentação e a prática de atividade física, explica o cardiologista.

Para o doutor Scudeler, a evidência atual ainda não os coloca no mesmo patamar em magnitude direta, mas aponta para um impacto cumulativo de alto peso clínico. Ou seja, o dano pode não ser idêntico, mas o destino, ao longo do tempo, pode ser o mesmo. 

Além do coração 

De acordo com o médico pneumologista do Hospital Albert Einstein e especialista em tabagismo, doutor Heli Samuel, o estresse crônico aumenta a chance do desenvolvimento de doenças e infecções respiratórias ao longo de todo o ano. Isso ocorre porque o estresse eleva os níveis de cortisol, o que  influencia de forma negativa o sistema imunológico.

O especialista explica que “outro fator de grande impacto é o sono de má qualidade. É esperado que a pessoa fique mais suscetível a infecções em semanas mais estressantes e nas quais dorme pior”. Ele destaca que resfriados, sinusites e pneumonias tornam-se riscos constantes, já que as vias respiratórias são uma “porta de entrada” frequente para vírus e bactérias. 

O doutor Samuel ressalta que o estresse emocional prolongado pode atuar como um gatilho para a piora de doenças como asma e DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica). “Fatores emocionais podem mudar a forma como o paciente percebe os sintomas, tornando-os mais intensos, ou estarem relacionados a crises agudas de piora”, finaliza.

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