Reconhecimento tardio afeta no diagnóstico e tratamento da doença crônica.
Gabrielle Ramos
Retenção de líquidos, inchaço e preocupação com a aparência quase fizeram Yasmin Brunet negar o convite para a participação no BBB 2024. Na época, a causa desses sintomas era desconhecida, mas hoje a modelo sabe que faz parte do grupo de mulheres com lipedema. Após entrevista ao Fantástico em março de 2025, o assunto voltou a ganhar destaque nas redes sociais.
O lipedema foi reconhecido como uma doença crônica apenas em 2019 pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Em 2022, passou a integrar a Classificação Internacional de Doenças (CID-11), referência global para a identificação e o registro de condições de saúde.
No Brasil, a adoção da CID-11 estava prevista para 2025. Mas foi adiada para 2027 pelo Ministério da Saúde, por causa da necessidade de treinar profissionais e atualizar os sistemas de saúde.
Como reconhecer o lipedema
O lipedema é caracterizado pelo acúmulo anormal de gordura nos membros superiores e inferiores, de forma desproporcional ao tronco. “É uma gordura que traz sintomas inflamatórios como dor, peso, cansaço, inchaço, roxo, uma sensibilidade maior ao toque e aquele aspecto de casca de laranja que as pessoas chamam de celulite”, explica o doutor em ciências e cirurgião vascular, Alexandre Amato.
Essas características são frequentemente confundidas com a obesidade. No entanto, a nutricionista especializada em lipedema Claudia Bellini explica que a doença não afeta mãos, troncos e pés, além de ser resistente à perda de peso. “Obesidade e lipedema são patologias complexas e se co-relacionam, pois o avanço do lipedema pode levar à obesidade e vice -versa”, complementa.
O doutor Fábio Kamamoto, diretor do Instituto Lipedema Brasil e um dos pioneiros no tratamento cirúrgico desta doença no país, explica que o lipedema é uma condição genética influenciada pelo estrogênio. Por isso, os sintomas normalmente surgem na adolescência das mulheres e se agravam com mudanças hormonais, como a menarca, uso de anticoncepcionais, gestação e menopausa.
Além disso, o lipedema pode ser uma resposta natural do organismo feminino a processos inflamatórios. Amato destaca que, diante de uma inflamação, o corpo desenvolve essa condição como uma forma de proteção, embora cause desconfortos e também seja uma preocupação estética frequente.
Critérios do diagnóstico
Alguns critérios diferenciam o lipedema da obesidade e de outras condições relacionadas ao acúmulo de gordura. A nutricionista explica que entre eles estão a desproporção corporal, a resistência à perda de peso, a sensibilidade ao toque e a fadiga nos membros.
Kamamoto explica essas características tornam o diagnóstico clínico, ou seja, baseado na conversa com o paciente. Por meio disso, é possível identificar o estágio do lipedema: no grau 1, observa-se um aumento de volume nos membros; no grau 2, surgem nódulos de gordura e hematomas; no grau 3, há deformidade da pele; e no grau 4, ocorre até a alteração do sistema linfático.
No entanto, o cirurgião vascular conta que, devido à busca por uma confirmação mais precisa, um grupo de pesquisa brasileiro, do qual ele faz parte, publicou um artigo científico sobre um exame para diagnóstico. “Através do ultrassom, conseguimos medir a espessura da gordura e calcular a probabilidade de a mulher ter lipedema”, explica.
Claudia Bellini começou a acompanhar mulheres com lipedema em 2019, após receber seu próprio diagnóstico. Ela compartilha que receber o diagnóstico é libertador para a maioria das mulheres, pois, por ser frequentemente confundida com obesidade, a condição leva muitas a passarem grande parte da vida em dietas e tratamentos médicos sem obter os resultados esperados.
Tratamento e desafios
O tratamento do lipedema tem duas vertentes principais. O clínico, ou conservador, envolve mudanças no estilo de vida, como praticar atividade física regular, ter uma dieta anti-inflamatória e evitar anticoncepcionais ou hormônios à base de estrogênio. “A associação de tudo tem um resultado brilhante. Muitas mulheres acabam ficando muito bem com o tempo”, compartilha o doutor Amato.
Já o cirúrgico é reconhecido por sua capacidade de remover as células doentes do corpo da paciente, por meio de uma lipoaspiração específica por exemplo. “Isso foi estabelecido em um consenso americano sobre o tratamento do lipedema, publicado em 2021”, explica Kamamoto.
Um dos maiores desafios é que muitos profissionais ainda têm dificuldade em identificar a causa da condição. O cirurgião vascular explica que isso ocorre porque o reconhecimento do lipedema como doença foi tardio e, até hoje, muitos o tratam como uma ‘doença da modinha’.
Além disso, como o incômodo é frequentemente visto como uma questão estética, muitos profissionais oferecem ‘soluções milagrosas’. Amato complementa que isso acaba prejudicando bastante o campo da medicina, pois ao invés de tratar a inflamação para evitar recorrências, o foco fica apenas na parte estética.
Kamamoto e Bellini destacam que o tratamento deve ser contínuo, pois o lipedema é uma doença crônica. “A partir da conscientização há um novo desafio, assumir a responsabilidade da própria saúde e se comprometer a melhorar hábitos daqui pra frente”, afirma a nutricionista.
Além disso, aspectos da estrutura da saúde brasileira também dificultam o tratamento, pois os procedimentos exigem treinamento especializado e não são cobertos pelos planos de saúde nem pelo SUS. Assim, o acesso ainda é restrito àqueles que têm condições de arcar com os custos.
A relação do estigma e saúde mental
A psicóloga especialista em autoestima, Alessandra Rameth, explica que, além do impacto físico, o lipedema pode afetar a saúde mental das mulheres. “Vivemos em uma sociedade com o olhar e crenças totalmente voltado a estética e consequentemente a um padrão estético, o que acaba levando a padrões corporais rígidos e até mesmo excludentes”, explica.
Isso pode até levar ao isolamento social, devido à vergonha ou ao medo do julgamento, como ocorreu com Yasmin. Além disso, afeta diretamente a qualidade de vida, gerando sintomas de ansiedade e depressão.
Dessa forma, a conscientização é fundamental para reduzir a desinformação e os estigmas. “O lipedema é condição médica e não uma falta de preocupação ou desleixo. Por isso a validação e acolhimento acabam ajudando ainda mais na sua compreensão”, reforça a psicóloga.