Cerca de 300 mil documentos de habilitação foram emitidos após alterações no processo.
Raíssa Oliveira
Os novos pedidos de Carteira Nacional de Habilitação (CNH) quadruplicaram no mês de janeiro de 2026 em relação ao mesmo período do ano passado, contabilizando 1,7 milhão de solicitações em todo o país. O crescimento no número se deve às novas regras para solicitação, provas teóricas, práticas e emissão do documento. Os dados, divulgados no dia 3 de fevereiro pela Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), fazem parte de um levantamento sobre o número de pedidos de habilitação após o programa CNH do Brasil.
Como requisitos para obter a carteira de habilitação, exames, aulas, provas teórica e prática continuam sendo exigidos. Entretanto, a forma como essas exigências podem ser realizadas, muitas vezes pode ficar a critério do aluno. O Ministério dos Transportes passou a oferecer aulas teóricas em formato gratuito e digital para aqueles que preferirem, além de exigir uma carga horária mínima reduzida de aulas práticas.
Leandro Silva, instrutor autônomo para quem já é habilitado, esclarece que esse aumento significativo de pessoas procurando tirar a sua habilitação agora se deve ao processo ter ficado mais barato e menos burocrático. “Só o fato de tirar o curso teórico que você tinha que ficar 12 dias dentro de uma sala e que, agora você consegue fazer de maneira online, em um, dois dias, […] já é uma mudança radical”, argumenta.
Acessibilidade financeira
A proposta do Ministério dos Transportes é que esse novo modelo possa reduzir o custo da CNH em até 80% para as categorias A e B, ou seja, habilitação para motocicletas e veículos de passeio. Essa acessibilidade financeira chamou muito a atenção de Lucas Barboza, que tem 26 anos e resolveu iniciar o processo da CNH em dezembro do ano passado, período que passou a valer as determinações. “O custo era o principal fator de eu não ter iniciado o processo. Antes pagava-se em torno de 3 mil reais para tirar uma CNH em São Paulo. Com essa nova lei, o custo caiu para menos de mil reais, o que foi uma grande ajuda”, esclarece.
A jovem de 19 anos, Rebeca Iolly, também compartilha que iniciou a solicitação no final do ano passado porque está mais prático e acessível, tanto financeiramente, quanto por conta da logística e disponibilidade de horários, ainda mais para quem trabalha de forma CLT ou tem algum impedimento de participar das aulas teóricas, que antes eram obrigatoriamente presenciais. Ela compartilha que “tem sido muito prático, dá para fazer muito remotamente”.
Aulas teóricas para obter CNH
De acordo com as informações anexadas no site da CNH do Brasil, o Ministério dos Transportes afirma que o aluno tem total liberdade de escolher se prefere estudar o conteúdo teórico pela plataforma digital, frequentar uma autoescola ou combinar essas duas opções. Independente do caminho escolhido, a informação essencial é que todos continuam obrigados a serem aprovados nos exames responsáveis por avaliar se o solicitante realmente possui todas as habilidades necessárias e exigidas para dirigir com segurança.
Rayane Sales, instrutora da Autoescola Taubaté, no interior de São Paulo, acredita que a ideia das aulas teóricas serem digitais é benéfica, mas não da forma que está sendo oferecida aos alunos. “O curso teórico oferecido pelo Senatran é péssimo, cheio de erros e permite a conclusão sem adquirir conhecimento nenhum. Para iniciar um processo de CNH, uma das exigências é saber ler e escrever, e esse curso permite que uma pessoa sem esses pré-requisitos obtenha o seu certificado”, argumenta.
A instrutora conta também que os novos alunos acabam não adquirindo aprendizado por meio dos ensinamentos teóricos e chegam às aulas práticas sem saber regras de circulação. Ela compartilha que “um exemplo prático foi um aluno deste novo modelo que optou por cinco aulas, pois já sabia dirigir e, em sua aula prática, invadiu a contramão por não saber em qual lado da via deveria permanecer e avançou paradas obrigatórias em cruzamentos, porque teve instruções de uma pessoa que não era profissional da área”.
Novos critérios de avaliação na prova prática
Neste novo formato, a necessidade é de apenas duas horas-aula práticas, com a possibilidade do próprio aluno contratar um instrutor autônomo credenciado pelo Detran e escolher a quantidade de aulas que julgar necessária para se sentir preparado para a prova. O Senatran também publicou, no início de fevereiro, o Manual Brasileiro de Exames de Direção Veicular, que estabelece mudanças na forma de avaliação na prova prática. Algumas das principais exigências alteradas foram a desobrigatoriedade da baliza e primeiro reteste gratuito, além do candidato poder utilizar o próprio carro durante o exame, com câmbio manual ou automático. As infrações passam a ser classificadas por peso e o candidato pode somar pontos em diferentes ocorrências, desde que não ultrapasse o limite.
Rayane acredita que a nova regra de pontuações vá causar prejuízos futuros, porque erros eliminatórios se tornaram faltas. “Eu concordo que três pontos para todo o percurso, contando com a baliza, eram poucos, porém, nesta nova forma o candidato pode cometer vários erros graves e ainda sim, sair aprovado. O trânsito não permite erros e sempre há consequências, o novo modelo forma condutores sem preparo para a realidade”, reflete.
A instrutora também questiona a desobrigatoriedade da baliza da prova prática, já que acredita ser uma fase essencial na formação do condutor, porque, além da própria baliza, o aluno também aprende a controlar os pedais. Ela menciona que “a baliza foi retirada também das categorias profissionais, o que também é um absurdo. O candidato à CNH profissional, que pretende trabalhar com veículos pesados, como ônibus e caminhões, não aprender a manobrar, que é uma parte importante na área, parece até uma brincadeira”.
Para Leandro, as mudanças deixaram o processo dinâmico e rápido. Ele também acredita que será bom para o candidato poder escolher entre uma autoescola tradicional e um instrutor autônomo. “A autoescola ensina de uma maneira mais engessada, e o autônomo vai ensinar, dependendo do profissional, vai dar uma experiência a mais para o aluno, não vai só ensinar aquelas técnicas do exame, não vai ensinar o aluno só a passar na prova. O instrutor autônomo, ele vai trabalhar diferente, eu pelo menos trabalho assim, em deixar o aluno mais preparado o possível para o dia a dia”, opina.
Números oficiais
De acordo com o levantamento do Senatran desde as novas determinações, foram registrados 24.754 cursos práticos realizados por instrutores autônomos. Os cursos práticos saíram de 328 mil para mais de 400 mil, e os exames práticos registraram um aumento de 11%, com mais de 323 mil aplicações em janeiro de 2026, contrapondo os 291 mil no mesmo período do ano anterior. O número de pessoas que já concluíram os cursos teóricos teve alta de 319%, enquanto os exames teóricos aumentaram 32%.



