Março amarelo: endometriose atinge mais de 7 milhões de mulheres no Brasil

In Saúde

Como a informação pode ajudar na qualidade de vida de mulheres portadoras da doença.

Vitória Amábili 

Entre janeiro de 2015 e janeiro de 2025, foram registradas 125.217 internações por endometriose, conforme dados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS). Apesar desses dados, o diagnóstico pode ser tardio e a doença ainda é pouco conhecida. 

O alerta ganha destaque no mês de março, com a campanha “Março Amarelo” do Ministério da Saúde em colaboração com organizações médicas, para expandir a informação e contribuir com a conscientização sobre a doença. 

A endometriose, doença inflamatória crônica, atinge 190 milhões de meninas e mulheres em idade reprodutiva ao redor de todo o mundo e, no Brasil, a doença atinge mais de 7 milhões de mulheres, causando inflamação, dores extremas e outros sintomas agravantes.

O que é a endometriose

O endométrio é responsável por preparar o útero para a chegada de um embrião, através de uma camada interna e, quando não ocorre a fertilização, o endométrio descama e a mulher entra no período menstrual. A endometriose, doença inflamatória crônica, ocorre quando a camada do endométrio está presente em outras partes do corpo, prevalente na pelve, afetando ovários, trompas e ligamentos uterinos, mas também outros órgãos, como intestino e bexiga. A doença pode causar dores intensas, inflamação, aderências pélvicas e, em alguns casos, dificuldade para engravidar. 

Izaianni Risco é psicóloga por formação e especialista em saúde da mulher. Foi aos 15 anos que ela começou a buscar as respostas para os sintomas que atormentavam sua adolescência. “Eu assisti a uma matéria, uma reportagem na TV com uma médica de saúde da mulher e ela falava sobre endometriose e, eu tinha certeza que era daquela doença que eu sofria”, conta. Ao longo dos anos, os sintomas foram se intensificando: cólicas com mais intensidade, período menstrual longo e com muitos coágulos e oito meses de escape intenso. 

Aos 27 anos a psicóloga recebeu o diagnóstico de endometriose avançada; as lesões haviam se espalhado para o peritônio, útero, plexo hipogástrico e alterações nos nervos intestinais, urinários e pelve. Depois de anos tomando anticoncepcional, injeção para menopausa e mantendo hábitos mais saudáveis para sua saúde, Izaianni passou por duas cirurgias.

 A primeira piorou sua condição, causando dores na perna esquerda, nas costas, hemorragias e pressão baixa ao desempenhar atividades comuns de casa. Já na segunda cirurgia, ela encarou um pós-cirúrgico tranquilo ao retirar todas as lesões da doença. “Eu fiz uma cirurgia em 2024, na qual eu removi todas as lesões, removi meu útero porque ele estava muito afetado, removi o apêndice, removi a endometriose de vários nervos da pelve, inclusive não senti mais nada. Minha dor na perna parou, dor nas costas parou, todas as dores que eu sentia cessaram, com essa cirurgia mais completa”, conta. 

Alguns fatores contribuem para a doença como prematuridade, baixo peso no nascimento e outros fatores. 

Ginecologista, Noele Gurgel D’Ávila trabalha com cirurgia ginecológica e endometriose, ela comenta que ainda não há uma teoria concreta de como a doença ocorre, mas a mais aceita é a teoria da menstruação retrógrada, onde parte do sangue menstrual flui pelas trompas e cai na cavidade pélvica. 

Diversos sintomas servem de alerta para a doença, o principal são as cólicas. Segundo dados da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia – FEBRASGO, por volta de 50% das mulheres em idade reprodutiva sentem cólica menstrual, e 10% delas apresentam dores intensas.

 O que a ginecologista explica é que essas dores não são normais quando intensas demais e isso pode ser um sinal da doença. “As cólicas da condição são aquelas que impactam sua qualidade de vida, necessitando constantemente de medicação, incapacitando-a, que por vezes tem que faltar à escola, trabalho”, explica a especialista. Além das cólicas, outros indícios da doença também podem ser dores no corpo, dificuldade para engravidar, hemorragias e coágulos, dor durante a relação sexual e problemas para engravidar. 

A doença pode ser classificada por seriedade, de acordo com sua extensão, localização e aderências. “Normalmente as mais grandes são aquelas com múltiplos implantes de endometriose, aderências mais grossas, grandes endometriomas ou aquelas que os sintomas são refratários ao tratamento clínico”, explica a ginecologista.

Fernanda Schaeppi é formada em marketing e sofre com o terceiro grau da doença. Quando era mais nova, passava o primeiro dia do ciclo menstrual no hospital recebendo medicamento venoso por conta das fortes dores e, em 2023 realizou uma cirurgia que melhorou por hora sua qualidade de vida. Hoje, ela não realiza tratamento contra a endometriose por estar tratando a bipolaridade, mas pratica hábitos para melhorar sua qualidade de vida e realiza exames rotineiros.  

Diagnóstico: a importância de perceber os sintomas 

Uma rotina de consultas médicas com especialista e a observação dos sintomas é a melhor forma de diagnosticar a doença. O especialista mais indicado é o ginecologista, e as consultas podem ser feitas através do encaminhamento de um clínico geral nas Unidades Básicas (UBS), sistema disponível no SUS, ou em clínicas particulares. 

Mas, além de um acompanhamento com ginecologista, é importante que a portadora procure outros especialistas que a auxiliarão a lidar com a doença e ter uma saúde mais equilibrada. “É uma doença com abordagem multidisciplinar”, salienta a ginecologista Noele. Fisioterapeuta, nutricionista, psicólogo e urologista fazem parte desse grupo. 

Diagnósticos tardios podem prejudicar a qualidade de vida das pessoas que sofrem pela doença: ⁠a importância da descoberta cedo é porque é uma doença crônica e progressiva, descobrindo precocemente conseguimos fazer um controle de dor e qualidade de vida, orientar quanto a fertilidade e indicação de cirurgia, prevenir a progressão da doença”, comenta a especialista. 

Um dos motivos que faz com que uma mulher demore a receber o diagnóstico é a dúvida sobre os sintomas, que causa confusão entre portadoras e médicos. Fernanda conta que passou por isso ao buscar apoio médico para tratar suas dores. Ela recebeu apenas uma medicação para cortar a menstruação e não exames para entender a complexidade que sua doença se encontrava e, depois, isso fez falta. “Na época a médica deveria ter me pedido mais exames, ter me falado que eu precisava fazer exame de tanto em tanto tempo, deveria ter me orientado de outras formas e não me passado um remédio e falado ‘se você não menstruar, está tudo certo”, conta. 

A falta de informações sobre a doença faz com que as mulheres não saibam quais são os sintomas que devem ficar em alerta, e isso pode gerar dúvidas e um atraso numa melhor qualidade de vida. A ginecologista alerta para o fato da doença ser progressiva e que sem um tratamento ela pode avançar. Por isso, é importante que os sintomas da doença sejam conhecidos, para que as mulheres possam reconhecer e procurar ajuda. 

Além disso, muitos casos são descobertos apenas quando uma mulher busca as causas de sua infertilidade, retardando o diagnóstico da doença. “A infertilidade acomete 30 a 50% das mulheres com o problema, ou seja, a uma porcentagem que convive com a doença e consegue engravidar, porém outra porcentagem irá necessitar de cirurgia ou terapia de reprodução assistida”, explica a ginecologista. 

Como a endometriose afeta a saúde mental? 

Além dos sintomas físicos, mudanças na saúde mental são perceptíveis em mulheres que sofrem da doença, como casos de depressão e o isolamento. A condição pode causar dores extremas no corpo, e isso é um dos fatores que leva a portadora ao isolamento social.

“Em diversos momentos do meu dia, eu fico muito frustrada por causa da dor, da fadiga e da dúvida sobre a endometriose estar interferindo ou não nos meus outros problemas. Um corpo constantemente inflamado, causa problemas que até os médicos demoram para entender”, conta Fernanda. 

Capacitada em atendimento psicológico para mulheres com endometriose, Gabriella Gomes descreve que na sociedade existem muitos estereótipos de que a mulher consiga aguentar a dor que sente, e isso causa preconceito e julgamento em casos que as portadoras da doença possuem a vontade de buscar ajuda. “Se você não se encaixa nessa expectativa, você é muito julgada; se você não tá dando conta de equilibrar todos os pratinhos e ainda lidar com uma condição crônica, você é fraca, você é frágil, você é menos; se você não consegue engravidar, você é menos mulher por isso”, explica a especialista. 

Parte desse julgamento impede com que as mulheres busquem o apoio que precisam para buscar um diagnóstico e permanecer com o tratamento, pois elas se sentem incapazes de encarar isso diante do julgamento e pressão social. 

Pós-graduado em Fisioterapia Pélvica, Vinicius Correia está a mais de 11 anos ajudando mulheres a vencer as barreiras da dor. Em suas consultas ele recebe mulheres que cresceram ouvindo que sentir dor é normal, e por isso demoram a buscar ajuda. “Também tem a vergonha de falar sobre dor íntima, o medo de procedimentos invasivos, a falta de informação sobre outras possibilidades e, muitas vezes, a questão financeira”, relata. 

Mas o que ele mais percebe em seu consultório é o cansaço dessas mulheres, que já passaram por diversos tratamentos e chegam desacreditadas nas consultas. “Quando elas entendem que o corpo não está com ‘defeito’, mas sim em um estado de tensão e proteção que pode ser tratado, isso muda completamente a forma como elas se enxergam e lidam com a própria dor e corpo”, conta. 

Mesmo que a mulher busque acompanhamento psicológico para lidar com a doença, é importante que ela mantenha o acompanhamento com o especialista que cuidará de seu tratamento diretamente, como com medicação e fisioterapia.“Nós somos um corpo só”, salienta a psicóloga ao explicar a importância de manter a mente e o corpo unidos.  

Qualidade de vida 

Para uma melhor qualidade de vida e conforto, diversos hábitos são indicados para pessoas que sofrem com a doença. Por se tratar de uma doença crônica, além de medicamentos e acompanhamento com especialistas, uma mudança nos hábitos se torna fundamental para o bem-estar da portadora, mesmo que as causas da doença sejam desconhecidas. 

Uma dieta controlada e saudável é um dos grandes fatores que contribui para diminuir as inflamações causadas pela doença. Nutricionista e pesquisadora dos aspectos nutricionais e genéticos da endometriose, Érika Góes comenta que existe uma “dieta única” para todas as mulheres com a doença, mas há estratégias alimentares específicas que podem contribuir bastante para o controle da doença, melhora dos sintomas e da qualidade de vida.

Diversos benefícios se notam em portadoras que seguem uma dieta anti-inflamatória: redução de dor; melhora na qualidade de vida; auxilia na contenção de outros sintomas, como inchaço, fadiga e problemas digestivos; esses fatores complementam o tratamento médico e sua eficácia. “De forma geral, prioriza-se uma alimentação com perfil anti-inflamatório, que se assemelha bastante a Dieta do Mediterrâneo: rica em frutas, verduras, legumes, grãos integrais, gorduras boas e alimentos fontes de ômega-3”, explica a nutricionista.

Também é importante reduzir o consumo de alimentos que favorecem os processos inflamatórios no organismos, sendo eles os ultraprocessados, açúcares em excesso, gorduras trans, álcool e cafeína, esclarece a especialista. 

Estudos apontam que consumir carne vermelha causa uma piora das cólicas em algumas mulheres e, por isso, a dieta de Fernanda contava com o consumo do alimento apenas uma vez ao mês, por orientação da sua nutricionista. A nutricionista explica que o mais indicado em alguns casos é a moderação do consumo de carne vermelha e a priorização de cortes magros e formas de preparo mais saudáveis.“Além de equilibrar com outras fontes de proteína, como peixes, frango, ovos e proteínas vegetais”, indica a nutricionista. 

Além de uma dieta controlada que resulta em perda de peso, mudanças nos hábitos, como introduzir exercícios físicos na rotina e trabalhar o controle de estresse ajudam a viver com a doença. Para a realidade da Fernanda, a prática de exercícios físicos é fundamental. “Nem todos os dias o meu ‘100%’ é o mesmo, varia em relação a dor, a fadiga, mas sei que uma vida inativa é pior”, comenta. 

Aliado aos hábitos saudáveis, uma intervenção com fisioterapia pélvica é fundamental para reduzir dores, tratar disfunção dos músculos pélvicos e aperfeiçoar o conforto. Através de terapias manuais e exercícios, especialistas ajudam as portadoras da doença a lidarem com dor e desconforto. 

Vinicius conta que usa em consultas com pacientes com endometriose o domínio de técnicas como a liberação miofascial pélvica interna, o trabalho direto na musculatura profunda do assoalho pélvico e manobras que devolvem mobilidade ao útero, intestino e bexiga. “Muitas vezes essas estruturas estão sob tensão, com mobilidade reduzida ou até aderidas, e isso interfere diretamente na dor, no fluxo menstrual e na relação sexual”, explica o especialista. 

Resultados começam a aparecer quando o tratamento é feito de forma correta e o corpo sai do estado rígido e inflamado. “Cura das cólicas, fim da dor na relação, fluxo menstrual mais equilibrado, melhora intestinal, urinária, diminuição da inflamação, melhora hormonal e até melhora da fertilidade”, conta. 

Relatos que inspiram

Depois de passar sua juventude sofrendo com dores e desconforto no corpo, Izaianni encontrou na sua segunda cirurgia o descanso para o sofrimento do corpo. Hoje, ela é uma psicóloga que busca se especializar cada vez mais na doença para oferecer suporte emocional às mulheres que sofrem com o mesmo que um dia ela sofreu.

“Isso é o que mais me motiva, o que me fez virar especialista, ver pacientes sendo bem tratadas, ver pacientes transformando as suas vidas, não só fisicamente, mas emocionalmente, reaprendendo a se relacionar com a doença, a se relacionar com o próprio organismo, a fazer um autocuidado, estarem mais presentes consigo mesmas”, expõe. 

Para que as mulheres tenham coragem de buscar ajuda, Izaianni salienta que a doença não é loucura, nem algo que apenas uma mulher passa, mas sim um problema sistêmico e estrutural na área da saúde em relação à saúde da mulher. 

“Não desista, continue buscando o seu diagnóstico, pesquise sobre nas redes sociais. Nós temos muitos profissionais falando sobre endometriose de uma forma muito atualizada, responsável, com muita esperança, tratamentos que funcionam. Continue procurando, porque você vai conseguir o seu diagnóstico e o seu tratamento, você não está sozinha nessa”, salienta. 

Fernanda relata que já pensou em desistir, que chorou por não entenderem sua dor e por não entender porque isso acontece com ela, mas lembra dos dias bons e tenta se apegar a eles. “Os momentos ruins passam, assim como os bons também passam. O que posso desejar é forças e não deixar que se esqueçam daquela frase clichê, mas muito importante ‘sua dor importa”, encoraja. 

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