O festival de Cannes foi o primeiro a premiar o longa produzido pela Netflix.
Késia Grigoletto
Nos últimos dias, o filme Emilia Pérez deu o que falar. A campanha do longa para o Oscar não saiu exatamente como os executivos da Netflix esperavam. A produção lidera com 13 indicações a premiação deste ano. Contudo, apesar das indicações, a obra está envolvida com as mais variadas polêmicas e críticas.
O filme é um musical espanhol, dirigido pelo francês Jacques Audiard, e conta a história de um narcotraficante do México, que forja a própria morte e retorna como uma mulher trans, interpretada por Karla Sofía Gascón, que busca uma espécie de redenção ao tentar reparar atos da vida pregressa. Na maratona rumo ao Oscar, o longa já garantiu o Bafta de Melhor Filme em Língua Não Inglesa.
Polêmicas de Karla Sofía Gascón
A atriz Karla Sofía Gascón, protagonista do longa, acusou a equipe de Fernanda Torres de estimular comentários depreciativos a respeito do filme Emilia Pérez nas redes sociais. Karla chegou a afirmar que os participantes da equipe de Ainda Estou Aqui, queriam prejudicá-la.
Além disso, uma série de posts antigos de Gascón no antigo Twitter,que envolviam opiniões polêmicas, foram resgatados e a atriz foi duramente criticada pelo meio midiático. Após a viralização, os tweets foram deletados da conta da atriz.
Para suavizar o fervor de tantas polêmicas a Netflix, distribuidora do filme, interrompeu o suprimento dos recursos que bancariam a acomodação e o transporte da atriz nas premiações, no intuito de dificultar ou até mesmo impedir a presença da atriz nas premiações.
Ausência de representatividade mexicana
Entre os seis atores principais do filme, somente a atriz Adriana Paz é mexicana. Contudo as atrizes Karla Sofía Gascón, Selena Gomez e Zoe Saldaña, que possuem o maior destaque da obra, são americanas. Em entrevista ao The Hollywood Reporter, Audiard tentou se justificar, afirmando que conheceu atrizes mexicanas e atrizes trans, no entanto, a dinâmica não fluía até conhecer Gascón.
O espanhol “indefensável” de Selena Gomez
Não bastando a ausência de atores de nacionalidade mexicana, a falta de fluência de Selena Gomez no espanhol foi severamente criticada desde o momento em que o filme foi lançado, o que gerou um prejuízo para a performance da atriz no olhar do público. Ao comparecer no podcast de Gaby Meza, o ator mexicano Eugenio Derbez afirmou que “a atuação de Selena é indefensável”, atribuindo o desempenho ruim da atriz a sua falta de conhecimento do idioma.
Xenofobia
As duas últimas questões apresentadas, na verdade, apontam para um problema muito maior. Ao retratar o México, o diretor escolheu representá-lo como um país corrupto e cheio de violência, o que fica pior pelo fato do filme se passar no México e ter sido filmado inteiramente na França.
Na opinião do diretor, filmar no país em que seu filme se baseia seria muito limitante e o deixaria preso. “Eu tinha todas essas imagens em minha cabeça, e essas imagens não caberiam nas ruas do México”, afirmou Audiard em uma entrevista ao The Hollywood Reporter.
Representação de transgeneridade problemática
Muitos críticos pertencentes à comunidade LGBTQIA+ desaprovaram o filme, pelo fato do enredo usar a identidade transgênero da protagonista como uma alavanca de redenção e um apetrecho para fugir do seu passado sombrio e atitudes cruéis, enquanto chefe do cartel de drogas. Em um artigo de opinião, o GLAAD mencionou o filme como um retrato que retrocede profundamente a representação trans.
Musical de músicas ruins
Para os fãs de musicais, o que torna o filme mais imperdoável são as músicas ruins. A jornalista brasileira Marina Person disse que “ é um musical com músicas ruins. É insuportável de assistir. Eu gosto de musical, mas, as músicas desse filme não possuem letras, que se encaixam com a harmonia e a melodia”.
A música mais criticada foi “la vaginoplastia”, que viralizou por simplificar de maneira excessiva, procedimentos de afirmação de gênero em uma lista completa com a presença de todos os procedimentos feitos atualmente.
Uso não apropriado de inteligência artificial
Para completar a lista de problemáticas, o filme usou inteligência para um processo chamado clonagem de voz, com a finalidade específica de aumentar o alcance vocal de Karla Sofía Gascón. A informação em si não é uma novidade, mas de alguns dias pra cá ganhou repercussão pela possibilidade de prejudicar as chances do filme na disputa pelo prêmio.
De todo modo, Emilia Pérez não é um filme ruim por apresentar um defeito ou outro, os fatores que contribuem para isso variam desde atuações que ultrapassam padrões minimamente aceitáveis, até uma trilha sonora desagradável e uso de inteligência artificial de maneira inadequada. No entanto, para os brasileiros, esses fatores aumentam as possibilidades de Ainda Estou Aqui garantir alguma estatueta.