Entre os 100 artistas brasileiros com mais reconhecimento em direitos autorais, apenas 11 são mulheres.
Renata Afonso
O número de mulheres atuantes no cenário musical brasileiro cresce cerca de 32% a cada ano. Ainda assim, a desigualdade de gênero continua sendo um dos maiores problemas nesse cenário, a discriminação de gênero e assedio limitam o avanço do reconhecimento feminino na música.
Segundo um panorama de mulheres na música em 2026 feito pelo Ecad (Escritório central de arrecadação e distribuição de direitos autorais), o aumento no número de mulheres no banco de dados demonstra que mais autoras, intérpretes, musicistas e produtoras têm buscado reconhecimento formal por suas criações e interpretações, marcando um avanço na representatividade feminina.
Apesar disso, as mulheres foram apenas 6% do total de titulares contemplados com rendimentos em direitos autorais na categoria de autor no ano passado. Em 2025, essa categoria foi a principal fonte de renda das mulheres, mesmo com percentuais ainda baixos.
A CEO da gravadora Ventania, Jacqueline Palheiro afirmou que, historicamente, existe grande falta de incentivo para as mulheres no campo musical. As redes de colaboração, que deveriam ser o topo das gravadoras, geralmente são lideradas por homens.
“No início da carreira as mulheres tentam tanto se provar que acabam aceitando as condições, isso acontece na maioria das profissões e na música o cenário é o mesmo, apesar de iniciativas as mulheres ainda acabam ficando com apenas 10% dos direitos no campo musical”, afirma.
Distribuição dos direitos autorais
O ECAD é a entidade brasileira responsável pela arrecadação e distribuição dos direitos autorais das músicas executadas no país. Toda vez que uma música toca em algum evento, nas rádios ou na TV, os autores envolvidos na criação da obra, os intérpretes e músicos que participaram da gravação recebem um percentual dos seus rendimentos.
Segundo o ECAD, em 2024 houve um novo recorde na gestão coletiva da música no Brasil, cerca de R$1,5 bilhão foram distribuídos em direitos autorais, beneficiando mais de 345 mil compositores, artistas e demais titulares.
“Embora esse assunto de arrecadação e direitos autorais seja desconhecido para grande parte do público, dentro do mercado artístico ele desempenha um papel fundamental, impulsionando toda uma cadeia produtiva.” explica o produtor Paulo Moreira.
Segundo Paulo, no ano passado, o mercado de shows e eventos superou expectativas, com mais de 62 mil eventos em todo o país, e essa repercussão teve um impacto significativo no cenário dos direitos autorais, refletindo em um crescimento de 128% nos valores destinados à classe artística em comparação com o ano anterior. Mas, apesar desse crescimento, apenas 10% dos direitos autorais foram destinados a mulheres, entre elas, autoras, intérpretes musicistas, produtoras fonográficas, versionistas e editoras.
A cantora e compositora Gabriella Stehling relata que um fator interessante nesse assunto é a falta de informação que existe para o compositor se educar e se preparar para ter os seus direitos.
“Eu passei muitos anos da minha carreira sem saber o que eu precisava fazer para ter as minhas músicas com os seus direitos assegurados, eu precisei de ter muitas conversas com diversas pessoas até ser encaminhada para um lugar que eu estou segura, aqui eu vou ter um suporte de advogados que vão estar fazendo o seu trabalho para proteger os meus direitos e tudo mais que é relacionado à minha gravadora”, declara.
A compositora acredita que a falta de acesso à informação e educação em saber como registrar as músicas, como obter os direitos autorais, e a falta da democratização da música e da musicalização são alguns dos principais motivos para que haja desigualdade.
Segurança para as mulheres
A União Brasileira de Compositores (UBC) conduziu, no primeiro trimestre de 2026, um levantamento digital com foco em assédio, discriminação e violência no mercado musical. Mais de 280 mulheres profissionais do setor indicaram a existência de práticas misóginas e desigualdades que afetam diretamente sua atuação e segurança.
“A gente não tem ambiente seguro em lugar nenhum, mas na música a gente vê muitos exemplos de mulheres tentando gravar ou fechar um contrato com uma grande gravadora e ela ter que fugir da sala, ou então algumas que até cedem ao assédio pela sua carreira musical, o que é muito triste”, lamenta a produtora Jacqueline Palheiro.
Organizações como Women in Music (Mulheres na Música), desenvolvem iniciativas com as empresas para que adotem as práticas de segurança, e pra que haja a igualdade de genero e segurança para as profissionais na industria como um todo.
Mudanças no cenário
Em 2016 a plataforma ‘Women’s Music Event’ (Evento de Música das Mulheres) criou o ‘Selo Igual’, uma iniciativa que busca gerar equidade de gênero em line-ups e em equipes de empreendimentos musicais. Para isso, convida festivais, festas, clubs, e casas de shows a ter pelo menos metade de suas equipes composta por mulheres.
A CEO da gravadora Ventania relata que, o que ela tem feito de iniciativa na empresa dela, é ter mulheres que trabalham pela empresa. “Eu tenho artistas mulheres, no line-up de um projeto, eu sempre somo mais as mulheres e depois o resto do pessoal”, continua. Para a Jaque, os pequenos espaços são os lugares que a gente vai fazendo essas iniciativas. “Isso não só aumenta a visibilidade, mas também cria demandas, mostrando que existem grandes compositoras e cantoras”, finaliza.
Jaqueline pondera que é evidente a necessidade de iniciativas como essa que promovam maior equidade, não apenas no âmbito dos direitos autorais, mas em toda a indústria musical. “Tais ações podem contribuir para dar visibilidade às mulheres, evidenciando a qualidade das produções femininas, ainda que elas permaneçam minoria na titularidade de direitos autorais”, ressalta. Nesse contexto, destaca-se a importância de uma atuação intencional por parte dos responsáveis e lideranças do setor, a fim de impulsionar mudanças efetivas.
“Além de mudanças na gestão, governança e políticas de ‘compliance’, o principal é mudar a cultura, o que é um processo longo. Não é só uma pauta social ou de reputação, porque as artistas ainda são muito silenciadas. As medidas podem ser tomadas, mas é necessária uma mudança cultural global, principalmente em relação ao assédio contra mulheres no ambiente profissional”, declara Jacqueline.



