Dia da Conscientização do Autismo destaca desafios e avanços na inclusão

In Saúde

Data reforça a importância da informação, do diagnóstico precoce e do respeito às pessoas com TEA.

Ellen Cristiny Andrade

O Dia Mundial da Conscientização do Autismo, celebrado em 2 de abril e instituído pela Organização das Nações Unidas em 2007, promove ações de conscientização em diversos países com o objetivo de informar a população sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), combater o preconceito e incentivar a inclusão social. A mobilização ocorre por meio de campanhas educativas, debates e iniciativas em escolas e instituições, buscando ampliar o conhecimento sobre o transtorno e melhorar a qualidade de vida das pessoas autistas.

 O que é o TEA e como ele se manifesta

O TEA é um transtorno do desenvolvimento neurológico caracterizado por dificuldades na interação social, na comunicação e pela presença de comportamentos repetitivos. O transtorno apresenta diferentes níveis, que variam do leve ao grave, e se manifesta de forma única em cada indivíduo,por isso o termo “espectro”.

De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde, uma em cada 160 crianças possui TEA. Embora não tenha cura, o transtorno pode ter seus sintomas suavizados com acompanhamento adequado. As causas ainda não são totalmente definidas, mas envolvem fatores genéticos e ambientais.

O diagnóstico costuma ocorrer entre os 4 e 5 anos de idade, e a intervenção precoce é considerada fundamental para o desenvolvimento da criança, contribuindo para avanços na comunicação, autonomia e socialização.

Desafios e estratégias nas escolas

No ambiente escolar, a inclusão ainda enfrenta desafios estruturais e pedagógicos. A  professora de educação especial com ênfase em autismo Deborah Cristina destaca que, apesar das particularidades de cada aluno, alguns sinais são recorrentes, como dificuldade na interação e socialização, atraso na comunicação, estereotipias (movimentos repetidos), sensibilidade auditiva ou sensorial e seletividade alimentar.

“Os fatores que tornam esse processo desafiador pouco estão relacionados à criança em si, mas sim ao sistema que sobrecarrega as escolas com salas de aulas cheias e pouco recurso humano especializado”, afirma a professora.

Entre as estratégias citadas pela educadora para serem utilizadas no dia a dia estão previsibilidade de rotina, com figuras, imagens, o uso da Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) com chaveiros e fichas para crianças não verbais, além de recursos sensoriais como abafadores, mordedores e painéis sensoriais.

Ao apontar caminhos para uma inclusão mais efetiva, a docente reforça a necessidade de avanços estruturais e culturais dentro das escolas. Segundo ela, tanto os desafios quanto as melhorias são multifatoriais e exigem mudanças no sistema educacional.

A professora ressalta a importância da ampliação de profissionais especializados, como os do Atendimento Educacional Especializado, para dar suporte não apenas aos alunos, mas também aos professores e à equipe escolar. “Além disso, é preciso fortalecer na unidade educacional uma cultura inclusiva, isso envolve promover respeito e acolhimento a toda diversidade”, destaca.

Já a professora do ensino regular Ivanilza Miranda aponta dificuldades práticas. “As turmas são grandes, e o desafio é não ter formação específica na área e o fato de os alunos não terem nivelamento no aprendizado”, aponta. Segundo ela, como esse é um assunto recente na área pedagógica, escolas e professores ainda estão em preparação. 

Para a docente, a inclusão vai além de adaptações pontuais. “Inclusão é muito mais que uma prova adaptada. É uma forma de amar os atípicos e inseri-los no ambiente transformado e adaptado às suas reais necessidades”, afirma.

Direitos, apoio e conscientização

No Brasil, legislações específicas garantem direitos às pessoas com autismo. A Lei nº 12.764, de 2012, reconhece o autismo como deficiência para todos os efeitos legais e institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com TEA. Já a Lei nº 13.977, de 2020, criou a Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (Ciptea), garantindo prioridade em atendimentos.

Além das leis, redes de apoio têm papel importante no acolhimento. A Rede Adventista de Apoio à Família Autista (RAAFA), criada em 2020, reúne cerca de 4.500 famílias no Brasil e em mais de 10 países, oferecendo acolhimento, troca de experiências e formação, com apoio da Federação dos Empresários Adventistas (FE) e da Igreja Adventista do Sétimo dia.

A jornalista e integrante da rede Keiny Goulart explica que a iniciativa de participar do projeto nasceu da própria vivência como mãe de uma criança autista não verbal. “A RAAFA entrou na minha vida não apenas como um projeto, mas como uma extensão da minha própria história”, ressalta.

“Nosso papel vai muito além de uma função técnica, é escuta, apoio e construção de pontes entre famílias, igreja e comunidade”, pondera. Keiny continua dizendo que trabalha para que nenhuma família atípica se sinta sozinha, para que elas encontrem suporte emocional.

A atuação da rede acontece de forma prática no dia a dia. “Tudo começa com a escuta, acolhendo famílias que muitas vezes chegam cansadas e precisando de apoio”, destaca. Segundo ela, também há orientação para líderes e a conexão entre famílias, fortalecendo uma rede de apoio.

Para Keiny, a inclusão ainda precisa avançar, principalmente na forma como a sociedade enxerga o autismo. Ela acredita que a mudança necessária está no olhar das pessoas, destacando que é preciso mais empatia e compreensão no cotidiano. Keiny continua a sua fala completando que a inclusão deve sair do discurso e se tornar prática cotidiana. “Inclusão não é algo complexo, muitas vezes está em pequenas atitudes”, pontua.

Ao ampliar essa reflexão, reforça que a responsabilidade pela inclusão é coletiva. “Acima de tudo, é entender que a inclusão não é responsabilidade de um grupo específico, ela é de todos nós. Quando isso muda, o dia a dia muda junto. E a inclusão deixa de ser um ideal bonito para se tornar uma realidade vivida”, conclui.

Vivência familiar revela desafios e conquistas

Na rotina familiar, o diagnóstico de uma criança com TEA traz mudanças profundas, que envolvem adaptação, aprendizado e novos desafios diários. A experiência de quem convive diretamente com o autismo revela, na prática, as dificuldades e também as conquistas ao longo do processo.

Rita Marinho é avó e responsável pelos cuidados e criação de uma criança com TEA. Ela relata que o diagnóstico não foi uma surpresa, já que alguns sinais eram percebidos no comportamento da criança. “Eu já estava desconfiada pelo jeito dele brincar, então já estava preparada em todos os sentidos”, relata.

Segundo Rita, mesmo tendo evolução, ainda existem desafios em cuidar do seu neto, principalmente na socialização. A avó conta que ele ainda não gosta muito de multidão e tem dificuldade de se enturmar com outras crianças.

Com o avanço das terapias, a família passou a perceber mudanças importantes, sobretudo na comunicação. Ela destaca que o neto, que antes não falava, hoje já consegue se expressar melhor, o que trouxe mais tranquilidade no dia a dia.

A rotina familiar também foi impactada e exigiu adaptações. “Na família, principalmente na minha vida, mudou praticamente tudo, porque minha dedicação dobrou. Atenção e cuidados são diferentes, porque não é fácil pra ele, principalmente por não saber se expressar direito ainda”, relata.

Rita também menciona o receio em relação ao olhar das pessoas em ambientes públicos. Segundo ela, já houve preocupação com críticas e falta de compreensão, principalmente de quem não entende as particularidades do autismo, situação que ainda causa desconforto.

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