A iniciativa tem parceria com o Hospital Sírio-Libanês por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS (Proadi-SUS).
Natan Santos
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, anunciou no início do mês de março o atendimento online em saúde mental pelo SUS, durante simulação de teleatendimento em unidade do hospital Sírio-Libanês em São Paulo, que tem como objetivo alcançar mais apostadores compulsivos. Essa novidade veio devido aos números crescentes das apostas nos casos de endividamento.
Segundo Padilha, o projeto é um meio de combater o vício em apostas, que acometem a saúde mental e as finanças de quem joga compulsivamente. “Somos nós podendo dar mais um passo para acolher e ajudar essas pessoas a sair do sofrimento mental que está diretamente associado à compulsão nas apostas eletrônicas”, constatou.
Uma pesquisa feita pelo Ibevar (Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo) e pela FIA Business School, que analisou dados de dezembro de 2011 até dezembro de 2025 revelou que, no Brasil, os jogos de aposta têm se tornado uma grande armadilha para o endividamento. Segundo a apuração, o impacto gerado pelas bets é superior ao gerado por juros e cartões de crédito somados.
Cláudio Felisoni, presidente do Ibevar, diz que ao longo do período analisado houve uma leve tendência de desaceleração no crescimento do endividamento no Brasil, porém as apostas mudaram o cenário. “Após a entrada das apostas esportivas, legalizadas em 2018 e amplamente difundidas a partir de 2019, a dinâmica da dívida ganhou novo impulso”, informa.
Os apostadores compulsivos
De acordo com o psicólogo clínico Felipe Correia Campos, o motivo de as apostas virtuais viciarem tanto está ligado com o fato de que as bets online oferecem acesso contínuo e imediato, sem barreiras físicas, além de apelarem à mecanismos psicológicos como a sensação de “quase ganho”. “A facilidade de apostar pelo celular e a rapidez dos resultados reduzem o tempo de reflexão, favorecendo decisões impulsivas”, explica.
Abbeu Matheus é um influenciador digital que já foi viciado em apostas online. Segundo ele, começou a apostar por ter visto um outro influenciador divulgando uma plataforma de bets. Na propaganda, o influenciador ganhava muito dinheiro de forma rápida e fácil. “Eu já vendi um iPhone, eu já vendi mochila, eu já vendi botijão, eu já deixei de pagar aluguel, tudo isso só para jogar”, admite.
O influenciador confirma que as bets possuem mecanismos que prendem o jogador. “Eles pagam de uma maneira que faz você acreditar que vai sempre ganhar. Então, se você perder cinco vezes, vai ganhar um valor alto na sexta vez, mas ainda assim não vai recuperar o que perdeu”, afirma.
Desafios que o projeto enfrentará
Segundo Felipe Correia Campos, psicólogo clínico, a iniciativa do governo é válida e necessária, pois o atendimento virtual amplia o acesso à saúde mental, principalmente para pessoas que por motivos diversos como dificuldade financeira ou vergonha não procurariam ajuda psicológica de forma presencial.
Por outro lado, o psicólogo diz que o programa também enfrentará desafios para se sustentar, e o principal deles é a adesão, pois muitas pessoas em situação de compulsão não reconhecem o problema ou só procuram ajuda em estágios mais graves. “Por mais que seja acessível, o atendimento virtual pode ter limitações na construção do vínculo terapêutico em casos mais complexos”, ressalta.
Felipe também diz que acrescentaria campanhas de conscientização mais agressivas para os apostadores compulsivos. Também diz que seria interessante incluir suporte multidisciplinar mais estruturado, com psicólogos, psiquiatras e assistência social, além de protocolos específicos para dependência comportamental.
O influenciador Matheus opina que a ação do governo é válida, mas não significa uma melhora definitiva. “É uma ferramenta que vai ajudar, mas apenas certas pessoas, não vai ser algo que vá resolver o problema. Nós sabemos que o problema está nisso ser legalizado e na facilidade de chegar nos celulares das pessoas”, comenta.



