Segundo uma pesquisa, apenas 1,5% das crianças brasileiras conseguem se tornar profissionais no futebol, e nem todas alcançam o alto nível.
Natan Santos
O artigo “Jogadores de futebol no Brasil”, publicado na Revista Brasileira de Ciências do Esporte, aponta que a probabilidade de uma criança se tornar jogadora profissional é de apenas 1,5%. Quando o recorte considera a disputa da Série A, esse número despenca para 0,01%, evidenciando o quão difícil é alcançar a elite do futebol brasileiro.
Além disso, dados divulgados pela CBF mostram que, em 2016, 80% dos jogadores assalariados recebiam até R$ 1 mil por mês. Já aqueles com salários acima de R$ 200 mil representavam apenas 0,1% dos profissionais. Diante desse cenário, muitos atletas precisam complementar a renda com trabalhos paralelos, devido aos baixos salários pagos por seus clubes.
As dificuldades de chegar e se manter na elite do futebol
Eduardo Frattini atua como coordenador do Departamento de Análise de Desempenho do Athletico Paranaense. Entre suas funções, está o acompanhamento de treinos e jogos para avaliar se o desempenho da equipe corresponde ao esperado. Por conviver de perto com atletas de alto nível, ele destaca que a permanência na elite vai além do talento e está diretamente ligada às atitudes do dia a dia.
“Para que o jogador chegue ao alto nível, é necessário que ele seja extremamente dedicado à sua profissão. É exigido dele desempenho máximo constante, tanto nos treinos quanto nos jogos. Além disso, trata-se de uma carreira com grande exposição, o que exige força mental para lidar com momentos bons e ruins”, explicou.
Vinícius Barriviera, ex-goleiro profissional entre 2005 e 2020, com passagens pela primeira divisão do futebol brasileiro e pelo futebol europeu, atualmente é treinador de goleiros da equipe sub-20 do Athletico Paranaense. Ele destaca três pilares fundamentais para o desempenho: “treino, alimentação e descanso”.
Por que alguns alcançam o alto nível e outros não?
Kauan Morão, doutor em Desenvolvimento Humano e Tecnologia e membro do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte, afirma que a alta concorrência é um fator relevante, especialmente no Brasil, onde milhões de crianças sonham em se tornar jogadores profissionais. No entanto, esse não é o principal obstáculo.
Segundo ele, os maiores desafios estão relacionados à especialização esportiva precoce, à precariedade das categorias de base, muitas vezes com infraestrutura insuficiente, à distância da família, à falta de apoio emocional dentro dos clubes, à rotina extenuante e ao estresse, além das dificuldades financeiras.
Nesse processo, comum tanto a atletas que se profissionalizam quanto aos que desistem, alguns conseguem persistir, enquanto outros acabam abandonando o sonho.
Barriviera relembra que, durante sua trajetória nas categorias de base, dividiu vestiário com jogadores muito talentosos que não alcançaram o nível profissional por falta de disciplina. “Alguns companheiros até chegaram a atuar em bom nível, mas poderiam ter ido mais longe, pois eram craques”, afirmou.
A influência do aspecto psicológico
Kauan Morão destaca que o futebol brasileiro tem passado a valorizar mais o aspecto emocional nos últimos anos, embora ainda haja um longo caminho até que essa área receba o reconhecimento adequado.
“O componente emocional precisa ser treinado como os demais pilares, físico, técnico e tático, com planejamento e periodização. É necessário compreender os atletas individualmente e coletivamente, sem tratar a psicologia do esporte apenas como solução emergencial quando o desempenho cai”, explicou.
Barriviera complementa que o fator mental é decisivo, especialmente pela diferença entre o desempenho nos treinos e nos jogos. Muitos atletas apresentam grande habilidade, mas não conseguem reproduzi-la em competições, frequentemente por conta da pressão externa.
“Para quem deseja trabalhar com futebol dentro de campo, é importante saber que se trata de um ambiente extremamente exigente, que pode ser um verdadeiro triturador de pessoas”, concluiu.



