Aumento de casos de sarampo em agosto leva autoridades a ampliar vacinação e reforçar alerta para os riscos da doença altamente transmissível.
Nicoly Maia
O estado de São Paulo já registrou 23 casos confirmados de sarampo em 2026, sendo 20 na capital, dois em São Bernardo do Campo e um em Guarulhos. A situação levou o Ministério da Saúde a ampliar temporariamente a recomendação de vacinação para pessoas de 6 meses a 59 anos nos três municípios, como estratégia para conter a circulação do vírus.
A resposta das autoridades também tem sido acompanhada por uma forte procura pela vacina. Segundo a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, desde o início da Campanha de Multivacinação, em 3 de agosto, foram aplicadas 1.471.949 doses contra o sarampo na capital. No Dia D de Multivacinação, realizado em 22 de agosto, foram aplicadas 222.601 doses contra a doença. A campanha segue até 1º de setembro.
O que acontece agora
O sarampo exige atenção porque está entre as doenças infecciosas mais transmissíveis. Segundo o infectologista Celso Mendanha, o vírus é disseminado principalmente por partículas respiratórias durante a respiração, fala, tosse ou espirro. Essas partículas podem permanecer suspensas no ambiente por até duas horas, o que significa que não é necessário contato físico direto com uma pessoa infectada para que ocorra a transmissão.
De acordo com o infectologista, a capacidade de disseminação é ainda maior pois o paciente pode transmitir o vírus antes do aparecimento das manchas vermelhas, características da doença. ‘‘De maneira geral, consideramos que o período de transmissibilidade começa aproximadamente quatro dias antes do surgimento do exantema e se estende até quatro dias depois”, explica.
Para a especialista em saúde pública, Aline Ribeiro, o Sistema Único de Saúde (SUS) possui mecanismos para identificar, notificar e controlar os casos, além de organizar campanhas de vacinação em conjunto com os municípios. “O Sistema Único de Saúde, em sua intersetorialidade, tem um preparo epidemiológico que identifica e controla os casos, notificando-os e organizando junto aos municípios campanhas vacinais para conscientização da população através da atenção primária”, destaca.
A especialista destaca ainda que crianças pequenas estão entre os grupos que demandam atenção. Segundo ela, a presença de casos em crianças pode favorecer a transmissão para adultos vulneráveis.
Por que o sarampo se espalha tão facilmente?
Aline Ribeiro também relaciona a proteção coletiva à cobertura vacinal. “Uma população mais de 90% vacinada e campanhas eficientes, funcionam como barreira da imunidade impedindo a abertura de janela para a infiltração do vírus e sua multiplicação”, afirma.
Entre os fatores que preocupam a especialista estão adultos que não sabem se receberam as doses necessárias e crianças que ainda não completaram o esquema de vacinação. “A falta de informação, crenças limitantes e o medo ainda são um grande desafio a ser superado dentro do âmbito da saúde pública”, enfatiza.
Segundo a especialista em saúde, as campanhas de vacinação precisam ir além da divulgação de informações. A comunicação com a população deve ser mais simples e participativa, inclusive dentro das próprias unidades de saúde.
Os sintomas do sarampo
Segundo o infectologista Celso Mendanha, o sarampo geralmente começa de forma semelhante a uma infecção respiratória, com febre, mal-estar, tosse seca, coriza e conjuntivite. O especialista explica que os olhos podem ficar avermelhados e sensíveis à luz, além de poderem surgir as chamadas manchas de Koplik, pequenos pontos esbranquiçados na parte interna das bochechas.
Mendanha afirma ainda que, após alguns dias aparece o exantema, caracterizado por manchas avermelhadas que começam, geralmente, no rosto, próximas à linha dos cabelos e atrás das orelhas, antes de se espalharem pelo tronco e membros.
“Diante da combinação de febre e manchas pelo corpo associadas a tosse, coriza ou conjuntivite, principalmente em uma pessoa não vacinada, com vacinação incompleta ou com história recente de contato ou viagem, a orientação é procurar avaliação médica no mesmo dia”, orienta.
O infectologista também descreve que o sarampo é extremamente contagioso, por isso é ideal que a pessoa sob suspeita da doença entre em contato com o serviço de saúde antes de se deslocar até ele. Isso permite que a equipe organize o atendimento de forma separada dos demais pacientes e evite novas exposições em salas de espera.
A doença pode trazer complicações
Mendanha deixa claro que apesar de muitas vezes ser associada apenas à manchas na pele, o sarampo pode provocar complicações graves. Entre as mais frequentes estão otite, diarreia e pneumonia. Esta última está entre as principais causas de hospitalização e morte relacionadas à doença.
Também existe o risco de encefalite aguda, uma inflamação do cérebro que pode causar convulsões, sequelas neurológicas e, em alguns casos, levar à morte. Outra complicação, mais rara, é a panencefalite esclerosante subaguda, uma doença neurológica progressiva que pode surgir anos depois da infecção e costuma ser fatal.
O infectologista também destaca um efeito menos conhecido, a chamada “amnésia imunológica”. O sarampo pode afetar células responsáveis pela memória do sistema imunológico, reduzindo parte da proteção que o organismo já havia desenvolvido contra outros agentes infecciosos. Crianças pequenas, principalmente menores de cinco anos, pessoas desnutridas, gestantes e indivíduos imunossuprimidos estão entre os grupos com maior risco de evolução grave.
Quem precisa se vacinar?
Segundo o Ministério da Saúde, a vacinação é a forma mais eficaz de prevenção contra o sarampo. No Calendário Nacional de Vacinação, a primeira dose da vacina tríplice viral é indicada aos 12 meses de idade, e a segunda, aos 15 meses.
Para pessoas que não foram adequadamente vacinadas na infância, a recomendação varia conforme a idade e a situação individual. Segundo Mendanha, pessoas de até 29 anos devem comprovar duas doses, entre 30 e 59 anos, uma dose, e profissionais de saúde devem ter duas doses, independentemente da idade.
Em São Paulo, Guarulhos e São Bernardo do Campo, a recomendação temporária contempla pessoas de 6 meses a 59 anos, independentemente do histórico vacinal, como medida de bloqueio da circulação do vírus. Para bebês de 6 a 11 meses, a chamada dose zero é utilizada em situações específicas de risco epidemiológico. Ela não substitui as doses previstas no calendário regular, que continuam sendo aplicadas aos 12 e 15 meses.
A vacinação também pode ser utilizada como medida de proteção após contato com uma pessoa infectada. De acordo com Mendanha, quando indicada, a vacina deve ser administrada preferencialmente nas primeiras 72 horas após a exposição. Para alguns grupos que não podem receber a vacina ou apresentam maior risco de complicações, pode haver indicação de imunoglobulina, sempre mediante avaliação dos profissionais de saúde.
Informação também é parte da prevenção
Além da vacinação, especialistas apontam a informação como uma das ferramentas para conter novos casos. Aline Ribeiro afirma que a resistência à imunização ainda está relacionada, em parte, ao medo de efeitos adversos e à circulação de informações incorretas. Para a especialista, as campanhas precisam apresentar de maneira clara os benefícios da vacinação e aproximar a população dos profissionais de saúde.
A orientação de Mendanha é que quem não sabe se está adequadamente protegido, procure uma unidade de saúde e confirme a situação vacinal. ‘‘Em um cenário de circulação de um vírus altamente transmissível, manter a vacinação atualizada deixa de ser apenas uma medida individual e passa a funcionar também como uma forma de proteção coletiva’’, aponta.



