A Organização Meteorológica Mundial prevê aquecimento do Super El Nino a partir de agosto, acarretando na alta do preço dos alimentos e das contas.
Luisa Oliveira
O El Niño entrou na fase de alerta ativo neste último mês. Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência da Organização das Nações Unidas (ONU), o fenômeno climático vem se intensificando de forma constante e deve atingir máxima intensidade entre agosto e outubro de 2026, na transição entre o inverno e a primavera. Os efeitos climáticos causados pelo fenômeno vão atingir de forma negativa a economia do Brasil, gerando o aumento do preço das contas e alimentos, elementos básicos para a sobrevivência. Durante este período, as mudanças de temperatura da superfície do mar no Pacífico Equatorial podem ultrapassar 2,9°C, patamar associado a eventos clássicos de um Super El Niño.
Em comunicado divulgado no fim de julho, a OMM afirmou que o aquecimento do Oceano Pacífico deve vir acompanhado de um provável Dipolo Positivo do Oceano Índico, uma combinação que amplia os riscos de secas, enchentes e incêndios florestais. As condições climáticas podem ser sentidas especialmente ao redor da bacia do Oceano Índico, com grandes reflexos no Brasil e na América do Sul.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, associou o fortalecimento do fenômeno ao aquecimento global provocado pela queima de combustíveis fósseis, afirmando que a crise climática “adiciona combustível em um planeta que já está em chamas”. Já a secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, ponderou que previsões climáticas isoladamente não evitam desastres, o que depende, segundo ela, das decisões tomadas a partir de agora por governos e comunidades.
Efeito em cadeia
Segundo o professor de meteorologia da Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI), Roger Torres, “quando se trata de El Niño no Brasil o efeito mais importante não é apenas chover mais ou chover menos, mas a cadeia de impactos que isso dispara em regiões diferentes ao mesmo tempo”.
O meteorologista conta que as secas no Nordeste trazem perdas na agricultura, na pecuária e no abastecimento de água. Já no Sul, o excesso de chuva associado ao El Niño pode produzir enchentes e colapso de infraestrutura, como ocorreu em 2024. Essa situação afeta a geração de energia hidroelétrica e a economia nacional como um todo, mas de forma específica, afeta principalmente as populações mais vulneráveis do nosso país. Pessoas que dependem da agricultura, as populações ribeirinhas e moradores de habitações precárias em áreas de risco em zona urbana, são as mais afetadas.
Aumento das contas de eletricidade
Segundo Torres, as mudanças nas chuvas associadas ao El Niño podem afetar a geração hidrelétrica porque a eletricidade do Brasil depende diretamente do comportamento das bacias e reservatórios. ‘‘Como a matriz elétrica brasileira depende em mais de 60% das hidrelétricas, a seca associada ao fenômeno El Niño, reduz o nível dos reservatórios e obriga o acionamento de usinas termelétricas”, afirma. Ele ressalta que esse tipo de instalação industrial é mais cara, o que tende a elevar as bandeiras tarifárias e pressionar ainda mais a inflação dos lares.
Para uma residência com consumo médio de 200 kWh, o impacto direto é de cerca de R$ 3,77 por mês, mas o temor do setor elétrico é que o país avance para a bandeira vermelha ainda neste segundo semestre, quando o custo extra poderá saltar para R$ 4,463 a cada 100 kWh no patamar 1, podendo chegar a R$ 7,877 a cada 100 kWh no patamar 2.
No setor elétrico como um todo, estimativas publicadas em julho pela Ti Safe apontam perdas potenciais na casa de 35 bilhões de reais para os 25 maiores grupos econômicos do setor brasileiro. Somando a geração, transmissão, distribuição e autoprodução do setor de terminais de distribuição e centros logísticos em um cenário de El Niño, moderado a forte, em que os reservatórios do Sudeste estão sob pressão. A XP Investimentos, por sua vez, estima uma perda de 8 bilhões somente para a energia renovável no país.
O preço dos alimentos
Para o livre docente em Desenvolvimento Agroindustrial e Política Agrícola pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), José Baccarin, o efeito no bolso depende do tipo de produto. Para Baccarin, uma quebra de safra brasileira isolada não necessariamente encarece o produto no país, a menos que a produção mundial também seja afetada. “Itens como arroz e feijão, os não comercializáveis, voltados sobretudo ao consumo interno, reagem mais diretamente a problemas na safra nacional. tendo um problema de quebra de oferta de arroz e feijão, causado ou não por problemas climáticos, o preço do arroz ou do feijão tende a subir para o consumidor nacional’’, assegura.
Levantamentos recentes feitos pelo o BTG Pactua revisaram o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), de 3,8% em janeiro para 4,5% em junho, prevendo que a inflação de alimentos atinja 7% em 2026 e 5,9% em 2027.
Baccarin lembra ainda que o Brasil já convive com uma inflação de alimentos estrutural desde 2007, quando o Índice de Preços de Alimentação e Bebidas (IPAB), passou a ser maior que o Índice Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Devido à maior importação de alimentos pela Ásia, que abriga 60% da população mundial e com a economia aumentando continuamente, a demanda do continente por alimentos cresce.
Pequenos produtores prejudicados pelo El Niño
Segundo o professor do Programa de Pós-Graduação em Economia Rural da Universidade Federal do Ceará (PPGER/UFC), Francisco Tabosa, no campo, o impacto financeiro tem um efeito em cascata. O professor afirma que a quebra de safra devido ao El Niño, pressiona os preços pelo lado da oferta e atinge com mais força o agricultor familiar, que muitas vezes depende da própria produção tanto para vender quanto para se alimentar. “O efeito cascata prejudica também o varejo como um todo, se pequenos produtores de milho, diminuem sua produção, automaticamente o preço da carne também será prejudicado para a região”, destaca.
“Quando as perdas se repetem, os produtores acumulam dívidas e tendem a reduzir a produção nos períodos seguintes, um ciclo que aprofunda a perda de renda no campo”, ressalta. Mecanismos como o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) e o Proagro, voltado à agricultura familiar, que indenizam produtores em caso de quebra de safra, além de linhas de crédito do Plano Safra com juros menores, ajudam a evitar o acúmulo de dívidas. “O seguro dá mais tranquilidade ao produtor, se ele tiver perda de safra, essa perda fica amenizada porque o produtor vai receber aquela indenização do seguro”, explica Tabosa.
Segundo o economista, a queda na produção agrícola reduz a arrecadação de Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação (ICMS), a nível estadual e Imposto sobre serviço (ISS) nos municípios, sobretudo no Centro-Oeste e no semiárido nordestino, com possíveis reflexos também no Sul, justamente nos meses em que essas prefeituras mais precisam de recursos para lidar com os efeitos do El Niño.
As medidas tomadas pelo governo
Diante do cenário, o governo federal anunciou um planejamento de R$1,335 bilhão em ações de preparação e resposta a possíveis impactos do El Niño. Os recursos serão destinados ao abastecimento de alimentos, segurança alimentar, saúde, monitoramento hidrológico, fiscalização ambiental e combate a incêndios florestais.
Do valor total, R$998 milhões estão previstos para alimentação, saúde e monitoramento hidrológico, incluindo R$850 milhões para a compra de milho e arroz destinados a estoques públicos e R$65 milhões para cestas de alimentos a povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e agricultores familiares. Outros R$337 milhões, liberados por medida provisória, serão aplicados em fiscalização ambiental e prevenção a incêndios florestais, com postos de comando previstos no Pará, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Maranhão e Tocantins.


