Anvisa anuncia o primeiro medicamento que pode adiar o diabetes tipo 1

In Saúde

Segundo a Biblioteca Nacional de Medicina, o Brasil ocupa a sexta posição no ranking de países com mais casos de diabetes. 

Melissa Conselho 

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) registrou no último mês o novo medicamento chamado Tzield® (teplizumabe), que pode ajudar a adiar o desenvolvimento das etapas 3 e 4 do diabetes tipo 1. O medicamento é indicado para pacientes a partir de 8 anos de idade que ainda não desenvolveram completamente o diabetes tipo 1.

O diabetes tipo 1 é uma doença autoimune, em que o próprio sistema de defesa do corpo ataca as células do pâncreas responsáveis por produzir insulina. Sem esse hormônio, a glicose se acumula no sangue, o que pode causar complicações ao longo do tempo. 

Até o momento, o tratamento era baseado apenas na reposição da insulina que o organismo havia deixado de produzir. Com o novo medicamento, a ideia é intervir no sistema imunológico que leva à destruição dessas células, o que pode retardar o seu aparecimento clínico.

Tipos de diabetes 

O Ministério da saúde descreveu em seu site oficial 4 tipos de diabetes. O diabetes gestacional, por exemplo, ocorre temporariamente durante a gravidez, quando as taxas de açúcar no sangue ficam acima do normal. Já o tipo pré- diabetes  se destaca pelos níveis de glicose no sangue que estão mais altos do que o normal, mas ainda não estão elevados o suficiente para caracterizar o diabetes tipo 1 ou tipo 2. 

Enquanto o diabetes Tipo 2 pode ser desencadeado pelo sobrepeso, sedentarismo, hipertensão e hábitos alimentares inadequados, assim, o corpo não aproveita adequadamente a insulina produzida. Além disso, o diabetes tipo 2 pode ser controlada com mudança do estilo de vida, alimentação e os medicamentos orais.  

A última categoria de diabetes é a do tipo 1, uma doença crônica não transmissível, hereditária, autoimune, que atinge principalmente a infância e adolescência entre 10 e 14 anos que ocorre quando o sistema imunológico ataca e destrói as células do pâncreas responsáveis por produzir insulina, um hormônio essencial para regular o açúcar no sangue. 

O ministério da saúde explica que o  tratamento do diabetes tipo 1 exige o uso diário de insulina para regular os níveis de glicose no sangue, evitando assim complicações da doença. Sem esse hormônio, a glicose se acumula no sangue, o que pode causar complicações ao longo do tempo. 

A progressão do diabetes tipo 1 ocorre em quatro estágios. Nos estágios 1 e 2, a doença ainda é pré-sintomática, mas já é possível detectar no sangue marcadores de autoimunidade. O estágio 3 é caracterizado pela presença de hiperglicemia de início recente, associada ou não a sintomas como sede excessiva, perda de peso, fadiga e visão turva. O estágio 4 é o diabetes tipo 1 de longa duração. 

Sintomas e sentimentos da descoberta do diabetes

Beatriz Pedra, paciente que tem diabetes, conta como foi difícil lidar com a doença. Ela descobriu a doença crônica do diabetes com 17 anos, no auge da pandemia, em 2020. “Foi um momento de muita incerteza e ansiedade, porque eu já sentia que tinha alguma coisa acontecendo no meu corpo, mas não sabia exatamente o que era”, relata.

De acordo com a lista de termos técnicos de saúde do Einstein, os sintomas que antecedem o diagnóstico geralmente são bem silenciosos como a perda de peso de forma rápida, vômitos, fraqueza, mudança no humor, fome e sede frequentes. 

Beatriz afirma que apesar de ter tido esses sintomas no início não foi algo óbvio, e que o diagnóstico de diabetes tipo 1 não era uma das opções que existia em sua mente. Ela conta que foi algo chocante e se emocionou bastante com a notícia. “Mas depois disso, comecei a pesquisar muito, consumir conteúdos, ver perfis no Instagram e canais de pessoas que também convivem com diabetes, e isso me ajudou muito a me acalmar.” relata. 

Ao relatar a sua história, Beatriz abre o coração completando que ao receber o diagnóstico, o medo sobrevém ao pensar nas muitas complicações associadas. “Eu mesma já vi casos próximos, como de uma mulher que precisou amputar a perna por conta de complicações do diabetes. Então, claro, isso gera medo”, conta.

Fatores socioeconômicos na rotina de um diabetico

A Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica revelou que o Brasil é o terceiro país que mais gasta com tratamento para diabetes. Antidiabéticos, insulina e glicosímetros são os principais gastos do Brasil, sendo que, para diabéticos de segundo grau, em que a doença não está sendo controlada por remédios, a cirurgia é necessária. 

Beatriz Pedra afirma que, muitas vezes, essas tecnologias e medicamentos ficam restritos a quem tem mais condições financeiras, ou então a pessoa precisa recorrer à justiça para conseguir pelo SUS ou plano de saúde. “Tornar esses avanços mais acessíveis é essencial para garantir qualidade de vida para todo mundo que convive com a doença.” conclui. 

Apesar destas dificuldades, Beatriz destaca que mesmo sem essas ferramentas necessárias, o maior desafio é justamente equilibrar a rotina intensa com o cuidado constante, para evitar picos de glicemia ou episódios de hipoglicemia. “Hoje eu consigo sentir quando minha glicemia está alta ou baixa, e isso me ajuda a agir mais rápido.” aponta. 

O Tzield será acessível a todos? 

Janai Costa, mestre em ciências farmacêuticas, afirma que deve demorar alguns anos para que o medicamento seja acessível. A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (CONITEC), o órgão do Ministério da Saúde responsável por avaliar a incorporação de medicamentos no SUS a eficácia, segurança e efetividade do produto. “Por isso, pode levar anos para que esse imunobiológico seja incorporado no SUS”, explica.

Rachel Querino, farmacêutica, afirma que após o medicamento ser liberado, existirá o desafio para a incorporação no SUS como a necessidade de rastreamento e identificação precoce dos pacientes em risco e o impacto orçamentário.

Mesmo que exista essa dificuldade, Rachel afirma que,“apesar do tratamento ser atualmente de alto custo, ele traz um benefício clínico relevante ao adiar a progressão da doença, preservando a função das células beta por mais tempo.”

Diferença entre o Tzield e a insulina 

Janai confirma que existe uma diferença entre o tratamento utilizando a insulina e o Tzield. “A insulina usada tradicionalmente é um hormônio que atua na regulação da glicose no sangue de pessoas em estágio 3, enquanto que o teplizumabe é um anticorpo que atua no sistema imunológico de indivíduos que possuem alto risco de desenvolver a doença”, conclui. 

“O remédio vai atuar na causa do problema, retardando a destruição das células produtoras de insulina (células beta). Enquanto a insulina trata os sintomas de um quadro mais avançado da doença”, completa Rachel. 
Segundo o site oficial do governo é recomendado buscar um profissional antes de iniciar o tratamento, buscar exames de sangue e analisar outros medicamentos que afetam o sistema imunológico, como corticóides ou remédios para doenças autoimunes, pois a combinação pode aumentar o risco de infecções.

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