COP15 no Brasil tem resultados inéditos com a proteção das espécies.
Vitória Amábili
Realizada pela primeira vez no Brasil, a 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias (CMS) ocorreu em Campo Grande, reunindo mais de 2 mil participantes para discutir a conservação da fauna global.
A fim de proteger e conservar animais, seus habitats e rotas de migração em toda a sua área de disposição, a capital recebeu mais de duas mil pessoas que debateram sobre os desafios e as soluções para a conservação das espécies migratórias, entre os dias 23 e 29 de março.
Dentre as 40 espécies incluídas na proteção internacional estão a lontra gigante do Brasil (Pteronura brasiliensis), a coruja-das-neves (Bubo scandiacus), conhecida popularmente após aparições na cultura pop, principalmente Harry Potter.
O que são espécies migratórias
O termo migratório é destinado às espécies que se deslocam de um lugar para o outro ao longo do ano, geralmente, seguindo padrões regulares, cíclicos e previsíveis. Grandes grupos de animais, como mamíferos, aves, répteis, anfíbios, peixes e insetos realizam esse comportamento ao longo da vida. Essas espécies cruzam fronteiras entre países ao longo da vida e, por isso, a colaboração para a sua proteção depende de diferentes nações.
As formas de migração dependem do tipo de animal e do local onde ele vive, mas os deslocamentos podem acontecer por diferentes motivos, como por busca de alimento, água, temperatura mais adequada e locais seguros para a reprodução.
Segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança de Clima, atualmente, a CMS protege aproximadamente 1.189 espécies migratórias, separadas em 962 aves, 94 mamíferos terrestres, 64 mamíferos aquáticos, 58 tipos de peixes, 10 répteis e 1 inseto. Sendo boa parte dessas fauna migratória no Brasil.
A ave que anuncia a estação
Ademis Villa, biólogo e ornitólogo, explica que a migração das aves se trata de um comportamento ecológico altamente adaptativo, relacionado à sobrevivência e ao sucesso reprodutivo de aves. “Muitas dessas aves realizam deslocamentos sazonais e regulares entre as áreas de reprodução e áreas de alimentação, ou até mesmo de descanso, seguindo o que a gente chama de rotas migratórias globais”, salienta.
Ainda, as aves podem manter um padrão de deslocamentos. “É o que a gente chama de fidelidade de sítio, uma parte da fauna migratória apresenta alta previsibilidade temporal espacial, retornando às mesmas áreas, anos após anos”, explica. No entanto, ele acrescenta que esses padrões não são completamente rígidos, existe também a plasticidade migratória, que permite ajuste nas rotas e nos períodos migratórios em resposta a mudanças ambientais, como alterações climáticas e perda de habitat.
Durante a primavera e verão, a Andorinha migra para o hemisfério norte, onde há insetos para comer e ela pode cuidar de seus filhotes. Mas durante o outono, a sua migração acontece para o hemisfério sul, onde o clima moderado irá fornecer comida em abundância. Ela é uma das aves conhecidas pelo senso comum por revelar a chegada de novas estações.
Assim como a Andorinha, outras aves estão presentes em muitos ditados populares e músicas que ajudam a situar as pessoas sobre as estações e mudanças climáticas. Segundo Ademis, essa compreensão é correta e serve como ponte entre o saber popular e o científico, mas é importante compreender os mecanismos ecológicos e fisiológicos envolvidos na migração. “A cultura popular não substitui a ciência, mas atua como um importante vetor da alfabetização ecológica”, acrescenta.
Durante a COP 15, foi lançado o Atlas das Rotas Migratórias das Américas, que irá acompanhar a trajetória de 622 espécies de aves migratórias que cruzam as Américas. A ferramenta promete ajudar no planejamento de governos e gestores ambientais para a proteção dos habitats de animais migratórios.
Importância da conservação
Na esfera ecológica, econômica e cultural, as espécies migratórias desempenham papel fundamental no equilíbrio dos ecossistemas que sustentam a vida no planeta. “Preservar a biodiversidade não é apenas uma questão ambiental, mas também uma necessidade de manter condições de vida sustentáveis para a sociedade”, assegura Ana Beatriz, estudante do último ano de Medicina Veterinária.
O ecoturismo é um dos benefícios diretos às pessoas, dentre a polinização de plantas agrícolas, dispersão de sementes e o apoio a atividades econômicas sustentáveis.
Além disso, o padrão de comportamento e mudança de ambiente servem como sinalizadores quando há problemas ambientais ligados à biodiversidade.
O Biólogo e Mestre em Diversidade Animal, Esaú Franco explica que as aves marinhas e grandes peixes, acumulam poluentes ao longo da cadeia e isso pode ser um bioindicador de áreas poluídas. A queda populacional desses animais também pode ser um sinal de alerta. “A partir disso, é possível detectar alterações na biodiversidade antes mesmo que elas se tornem visíveis para nós”, aponta.
Um trabalho de todos
Por se tratar de espécies que migram de um local para o outro muito antes de existir fronteiras geopolíticas, a preservação destes animais exige necessariamente cooperação internacional, visto que a sobrevivência e procriação das mesmas dependem de diferentes locais. “Sem acordos internacionais, a proteção em apenas uma região não é suficiente para garantir sua conservação. Por isso, a cooperação entre países é fundamental para assegurar que a fauna migratória encontre condições adequadas em todas as etapas de sua migração”, comenta Ana.
Para além de políticas públicas e a proteção dos habitats de maneira internacional, a sociedade também pode contribuir para a redução dos impactos ambientais, adotando práticas mais sustentáveis no dia a dia. “A conservação só funciona quando há essa integração entre ações governamentais e participação ativa da população”, aponta o biólogo Esaú.
Decisões para o futuro
No dia 22 de março, antes da abertura da COP15, o presidente Lula reafirmou o compromisso do Brasil com a conservação das espécies migratórias, assinou decretos que ampliam o Parque Nacional do Pantanal Matogrossense e a Estação Ecológica do Taiamã, no Mato Grosso. Além disso, recebeu chefes de Estado, líderes de governo e representantes diplomáticos dos 132 países mais União Europeia que assinam e colaboram com a Convenção.
Pela primeira vez, a conferência teve 40 animais, subespécies e populações incluídas ou reclassificadas nos Anexos I e II, que incluem, respectivamente, espécies migratórias ameaçadas de extinção e animais que demandam cooperação internacional para sua conservação.



