O dom de ser mãe

In Crônica, Geral
mãe

Camilly Inácio

No chão, sentada ao lado da minha nova cama, eu me lembrei:
– Mas mãe você vai trabalhar a tarde todinha?
– Sim, filha!
– A senhora sabe que eu estudo de manhã, né?
– Sim…
– Então eu não vou mais te ver?! Porque eu estudo de manhã, você vai trabalhar de tarde e de noite a gente dorme!!!

Em tom de desespero, aquela última frase saiu de meus lábios, enquanto chorava por achar que ali acabava meu contato diário com minha mãe. Eu tinha 12 anos, e ela nunca tinha trabalhado fora. Não entrava em minha cabeça que eu não teria minha mãe em tempo integral. 

Mais tarde, descobri que existia um grande intervalo de tempo não calculado entre as atividades diárias (além de várias tardes entediantes que foram transformadas em visitas ao trabalho de mamãe).

Desde pequena, eu fazia o máximo de atividades possíveis com minha mãe. Era difícil me tirar de casa se ela não fosse. Éramos melhores amigas. Saindo pra comer, fazendo compras, fofocando, ou assistindo filmes de natal. Sempre estávamos fazendo coisas juntas. Minha mãe sempre quis a maternidade, ela adora isso. Eu nunca escolhi ser filha, mas adoro isso. 

Às vezes penso que ser mãe pode ser um dom. Um dos mais especiais que pode existir. Como minha mãe diz: “ser mãe é a coisa mais linda que existe no mundo”. Elas conseguem ser porto seguro em meio a tempestade. Se atentam a cada passo dos filhos, e por vezes se esquecem de si. 

Podem fazer papel de melhor amiga e confidente. Tem um “abraço casa” e sabem ser ombro amigo. São o maior exemplo de cuidado e amor incondicional. E nunca deixam de ter preocupações com seus filhos, mesmo quando já são grandes. 

No chão, sentada ao lado da minha nova cama, eu me toquei: “nunca mais vou morar com minha mãe”. Longe dela, me encontro chorando descontroladamente. Sair de casa não é fácil. Morar longe dos pais não parece mais uma ideia tão legal. 

Chorava como a garotinha de anos atrás, ao descobrir que a mãe começaria a trabalhar. E me lembro que não calculei meu tempo muito bem. Assim como tinha tempo, ainda o tenho. Ainda a tenho. E, na verdade, que boa lembrança saber o que fazer com as próximas tardes entediantes.

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O texto foi apresentado pelo Ministro do STF Flávio Dino e relatado pela senadora Eliziane Gama.

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