Quase metade dos estudantes brasileiros usa IA para estudar

In Educação

Pesquisas para tarefas escolares são o uso mais comum entre os estudantes brasileiros, aponta o PISA 2025. 

Nicoly Maia

Quase metade dos estudantes brasileiros de 15 anos usam chatbots de inteligência artificial (IA) pelo menos uma vez por semana para estudar. O índice, de 48%, está dois pontos acima da média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), de 46%, segundo o PISA 2025, divulgado em 8 de setembro. 

O uso mais comum entre os brasileiros é a pesquisa rápida, 40% recorrem à IA para buscar informações sobre temas novos, contra 31% na média mundial. Outros 31% usam a ferramenta para resumir textos e 27% para elaborar rascunhos de trabalhos escritos. Apenas 11% disseram nunca ou quase nunca usar chatbots nas atividades escolares analisadas.

O que é o PISA?

O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) é a principal prova educacional comparada do mundo. É realizada a cada três anos pela OCDE e avalia estudantes de 15 anos. A edição de 2025 ouviu cerca de 760 mil estudantes em 91 países, sendo 30.140 deles no Brasil. 

Além de medir conhecimentos, o exame aplica questionários sobre hábitos e rotina escolar. Esta foi a primeira vez que o PISA mediu o uso de ferramentas de inteligência artificial (IA) no dia a dia dos estudantes. Os dados, divulgados em 8 de setembro, mostram que a IA já faz parte da rotina escolar.

Celular proibido, IA liberada

O dado chega num cenário curioso. Segundo o PISA, 81% dos estudantes brasileiros estão em escolas com algum veto ao uso do celular, contra 49% na média da OCDE. Ao mesmo tempo em que o aparelho é restringido no ambiente escolar, as ferramentas de IA continuam acessíveis aos estudantes dentro e fora da escola. Os alunos brasileiros passam, em média, 1,3 hora por dia usando dispositivos digitais para aprender na escola, contra 1,7 hora na média da OCDE. 

Para a psicopedagoga Igoana Olegário de Lucena, especialista em neurociências e aprendizagem, a questão não está apenas no acesso à tecnologia, mas na forma como ela é utilizada. Segundo ela, o uso da IA pode contribuir para a aprendizagem quando o estudante participa ativamente do processo, mas pode prejudicá-lo quando a ferramenta passa a substituir etapas como a persistência, a repetição e o erro.

Dúvidas dos estudantes em sala de aula 

Henrique Costa tem 15 anos, a mesma idade dos estudantes avaliados pelo PISA. Ele usa o Chat GPT e o Gemini principalmente quando tem trabalho ou não entende algum conteúdo. “Tipo em matemática, quando eu não entendo como faz uma conta ou uma questão. Eu mando a questão e peço pra explicar passo a passo, porque às vezes só a resposta não ajuda muito”, conta.

Para ele, a vantagem está na paciência da máquina, pois ela explica de um jeito mais simples e possibilita ao aluno perguntar várias vezes sobre a mesma questão, sem ficar com vergonha de não ter entendido na primeira explicação. Henrique também afirma ter consciência de que se só copiar a resposta da IA, não vai aprender nada.

O estudante já flagrou erros da IA. Percebeu quando a resposta não batia com o livro nem com a explicação da professora, e então pesquisou em outro lugar ou perguntou ao docente. Na escola, a regra varia. “Depende do professor. Alguns deixam usar para pesquisar e entender melhor a matéria, mas falam que não é pra copiar tudo e entregar como se fosse nosso. Outros preferem que a gente faça sozinho, principalmente em trabalhos e provas”, diz.

Da tarefa pronta ao quadro em branco

A mudança também chega aos anos iniciais. Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, do Cetic.br, 56% das crianças de 11 e 12 anos usaram IA generativa para pesquisas escolares ou estudos. É o caso dos alunos de Beatriz Rodrigues, professora de turmas com alunos entre 10 e 11 anos, que usam o chat principalmente em matemática e em português. Ela explica como percebe o uso da ferramenta:

“Meus alunos têm 10 ou 11 anos e usam o chat para responder, geralmente, às tarefas de casa. Algumas vezes eles mesmos dizem que utilizaram a ferramenta e, quando não percebo, é pelo fato de a tarefa estar redigida perfeitamente, com palavras que geralmente não fazem parte dos vocabulários cotidianos deles. Além disso, quando são chamados para responder no quadro, não conseguem resolver sozinhos algo que já responderam”, explica.

Segundo a professora, em matemática o aluno usa o chat para entender como fazer as contas e, em português, para obter uma interpretação coerente do texto. O problema, na avaliação dela, é que a resposta correta esconde o que o aluno realmente sabe. 

“Aparentemente, parece que ele tem o domínio da atividade e do conteúdo, mas, na verdade, ao se deparar com outra atividade do mesmo assunto, não consegue desenvolver da mesma forma”, relata. Em matemática, completa, o aluno “não consegue realizar outro cálculo do mesmo assunto sem ajuda”.

A professora também observa diferenças na comunicação dos estudantes. Segundo ela, aqueles que recorrem aos chats tendem a apresentar respostas mais curtas e superficiais, com maior dificuldade para justificar opiniões ou desenvolver questionamentos.

Em contraste, Beatriz afirma que os alunos que não recorrem à ferramenta precisam percorrer sozinhos as etapas para chegar a uma resposta. “Se precisa fazer um cálculo, precisará se esforçar para pensar, lembrar do passo a passo, mas, no final, ele tem um aprendizado significativo, no qual, praticando, não irá esquecer o que foi adquirido.”

Efeitos nos estudantes

A psicopedagoga Igoana, descreve sinais parecidos nos adolescentes, como passividade ao responder em sala, dificuldade de desenvolver o assunto para a turma e linguagem distante da usada nas avaliações. Para ela, o efeito da IA depende da forma de uso. Quando o adolescente participa ativamente, há benefícios, como gerar questionários, pedir exemplos, fazer comparações e ampliar um tema. “Receber as respostas prontas e, por vezes, apenas copiar não promove, necessariamente, uma aprendizagem significativa”, afirma.

Segundo a psicopedagoga, a informação copiada pode funcionar a curto prazo, permanecendo pouco tempo na memória sem que tenha sido consolidada. “Estudar é custoso cognitivamente” e o risco é a IA virar substituta de etapas como persistência, repetição e erro.

Ela cita a “atrofia cognitiva”, termo do pesquisador Michael Rich no livro O Guia do Midiatra, para o desuso de habilidades quando a IA assume tarefas analíticas. Para ela, o imediatismo reduz também a tolerância à frustração, o que pode gerar desmotivação com a escola. “Os chatbots não têm como objetivo substituir o esforço cognitivo, mas auxiliar com mais possibilidades de aprendizagem quando utilizados da maneira correta e ética”, resume.

Orientação como caminho

A professora Beatriz não defende a proibição. Para ela, a IA pode facilitar o trabalho docente, embora as respostas obtidas sejam, em sua avaliação, muitas vezes genéricas. “Facilita dar um comando e obter o que você pede sem precisar planejar”, diz.

Por isso, ela defende que o uso seja acompanhado de orientação. “Eu acredito que nada na escola seja ‘engessado’, sempre podemos encaixar a tecnologia ao nosso favor e, dando as direções corretas, os alunos conseguirão extrair materiais. O perigo é utilizar apenas essa ferramenta como conhecimento, pois com o chat até nós adultos estamos perdendo a capacidade de raciocinar, imagine um estudante que está se desenvolvendo”, acrescenta. Na prática, a professora ensina os alunos a desconfiar das respostas produzidas pela ferramenta e a conferir as informações em outras fontes.

“Eu oriento que leiam o que estão pesquisando, que procurem em outras fontes para verem se o que está ali condiz com o que está sendo colocado nos demais lugares. Que observem de onde a informação saiu, pois já vi chats buscarem em post no Instagram. Se for algo de matemática, direciono que procurem vídeos de professores explicando no YouTube, pois, mais do que a resposta, o saber fazer é o foco principal”, afirma.

A psicopedagoga defende que família e escola reforçam que a IA é “um recurso a mais” e não substitui o pensamento do estudante. Recomenda que os adolescentes perguntem ao professor o que a escola permite. Segundo a TIC Educação 2024, apenas 32% dos alunos do ensino médio relataram ter sido orientados sobre como usar ferramentas de IA generativa nas atividades escolares.

Regras começam a sair do papel

O poder público já se mexe. Em abril, o Ministério da Educação lançou o documento orientador “Inteligência Artificial na Educação Básica”, com orientações curriculares e princípios para o uso ético da tecnologia. Na ocasião, a secretária de Educação Básica, Kátia Schweickardt, afirmou que a presença da IA no cotidiano de professores e estudantes não é mais opcional. Já o Conselho Nacional de Educação, aprovou no dia um setembro as diretrizes para o uso de IA em escolas e universidades, que ainda dependem de homologação do MEC.

Enquanto as regras não chegam a todas as salas, o recado de quem ensina e de quem estuda é o mesmo, a IA pode ajudar a entender, mas quem precisa aprender continua sendo o estudante.

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