Condição que afeta mulheres antes dos 40 anos, reduz a proteção do estrogênio e exige atenção à saúde cardiovascular.
Ellen Cristiny Andrade
A menopausa precoce, clinicamente chamada de insuficiência ovariana prematura, pode aumentar em até 40% o risco de doenças cardiovasculares em mulheres antes dos 40 anos, segundo estudo publicado na revista científica JAMA Cardiology.
A condição está relacionada à queda antecipada do estrogênio, hormônio responsável pela proteção do coração, e pode evoluir de forma silenciosa, exigindo acompanhamento médico para prevenir complicações como infarto e acidente vascular cerebral (AVC).
O que é a menopausa precoce?
A insuficiência ovariana prematura é caracterizada pela ausência ou irregularidade da menstruação em mulheres jovens. O quadro pode surgir de forma gradual e, em muitos casos, tem causas desconhecidas, sendo classificado como idiopático. Também pode estar associado a fatores genéticos, alterações cromossômicas, doenças autoimunes ou tratamentos como quimioterapia e radioterapia.
Os sintomas são semelhantes aos da menopausa natural, incluindo ondas de calor, alterações de humor, insônia e mudanças no ciclo menstrual. Apesar de ser um processo natural do corpo feminino, quando ocorre precocemente, exige atenção redobrada devido aos impactos no organismo.
Diagnóstico e impactos no organismo
A identificação precoce da condição depende, principalmente, da observação de mudanças no padrão menstrual, que podem ser progressivas e nem sempre valorizadas no início.
Segundo a ginecologista Gabriela Rebelo, a menopausa precoce pode se manifestar tanto pela ausência completa da menstruação quanto por ciclos cada vez mais espaçados, o que exige investigação clínica e hormonal detalhada. A especialista explica que o diagnóstico envolve avaliação ginecológica completa, já que diferentes causas podem estar associadas ao quadro, embora muitos casos não tenham origem definida.
“A gente prefere chamar de insuficiência ovariana prematura, que é a ausência de ciclos menstruais antes dos 40 anos. Em alguns casos, ela começa com uma irregularidade menstrual muito grande, com longos períodos sem menstruar”, explica.
Além das alterações no ciclo, a médica destaca que a condição provoca impactos amplos no organismo, especialmente pela queda precoce do estrogênio, que tem papel importante no metabolismo, na saúde óssea e na proteção cardiovascular. Segundo ela, a falta desse hormônio pode afetar também aspectos cognitivos e emocionais, como dificuldade de concentração, alterações de humor e problemas no sono.
“Esse estrogênio tem efeitos benéficos no corpo, desde a saúde óssea até o controle do colesterol, da glicemia e da gordura corporal. Quando a produção para antes da hora, a mulher perde essa proteção”, afirma.
A ginecologista ressalta que, após o diagnóstico, o acompanhamento deve ser contínuo e, quando possível, incluir a reposição hormonal para reduzir os impactos da deficiência hormonal. Ela também destaca a importância do cuidado multiprofissional, com atenção à saúde cardiovascular, metabólica e mental.
Riscos cardiovasculares aumentam com a queda hormonal
A redução do estrogênio está diretamente ligada ao aumento do risco de doenças cardíacas. Sem a proteção desse hormônio, o organismo fica mais vulnerável a alterações que favorecem o desenvolvimento dessas condições ao longo do tempo.
De acordo com o cardiologista Rivelino Bertollo Júnior, a menopausa precoce antecipa esse processo natural do corpo e amplia o período de exposição a esses riscos. “Antes da menopausa, o estrogênio ajuda a proteger o coração. Quando ela acontece mais cedo, essa proteção acaba mais cedo também”, afirma.
O especialista explica que essa mudança afeta o funcionamento do organismo de forma progressiva, alterando fatores importantes para a saúde. As artérias ficam mais endurecidas, o colesterol tende a piorar, a pressão pode subir e aumenta o risco de diabetes.
O cardiologista também chama atenção para a dificuldade de identificação precoce desses problemas. “O que mais preocupa é o que não aparece. Muitas vezes, a pressão, o colesterol e o açúcar no sangue começam a subir sem dar sintomas”, ressalta.
Vivência evidencia desafios e adaptação
Além dos impactos físicos, a menopausa precoce também pode afetar a saúde emocional e a rotina das pacientes, especialmente quando o diagnóstico ocorre ainda na juventude.
A estudante Júlia Ribeiro relata que descobriu a condição aos 16 anos, após um episódio de dor intensa. “Aos 16 anos, acordei com uma dor muito forte no abdômen. Quando tentei levantar, senti como se algo tivesse explodido dentro de mim”, conta. Ela havia sofrido uma complicação no ovário.
Júlia explica que a falta de informação dificultou o entendimento inicial da situação e trouxe insegurança sobre o futuro, além de impactos emocionais importantes. “Eu não sabia como seria minha vida depois disso. Me sentia menos mulher por conta da esterilidade”, relata.
Com o tempo, o acompanhamento médico ajudou na adaptação à nova realidade e na adoção de cuidados com a saúde. “Aprendi que a menopausa precoce não é só hormonal, ela também impacta o coração. Com acompanhamento, é possível prevenir muitos problemas”, afirma.



