Atlas mundial da obesidade 2026 mostra resultado do número de crianças e adolescentes com sobrepeso e obesidade.
Luisa Oliveira
O dia mundial da obesidade foi marcado no início deste mês e o Brasil é o sétimo país com o maior número de crianças com sobrepeso e obesidade no mundo. Segundo a pesquisa feita pelo Atlas Mundial da Obesidade 2026, publicada no dia 4 de março, cerca de 507 milhões de crianças e adolescentes poderão estar com sobrepeso ou obesidade até 2040, caso as tendências atuais sejam mantidas. Além disso, o documento também mostrou que com a jornada corrida e estilo de vida dos responsáveis, mais da metade (51,7%) de bebês com até 5 meses de idade não recebem a quantidade necessária de leite materno diariamente.
Ainda de acordo com o relatório, aproximadamente uma em cada cinco crianças no mundo já apresenta excesso de peso, condição associada ao aumento de doenças crônicas ainda na juventude, como hipertensão e problemas cardiovasculares.
No Brasil, o cenário também preocupa os especialistas. Estimativas no documento declaram que cerca de 17 milhões de crianças e adolescentes brasileiros estão acima do peso, sendo aproximadamente 7 milhões já classificados com obesidade.
O país ocupa posição de destaque no ranking mundial de casos e as projeções indicam que, se nada for feito, mais da metade dos jovens brasileiros poderá viver com excesso de peso até 2040. Segundo dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil possui 41,5 milhões de jovens na faixa etária de 5 até 19 anos. Desse total, cerca de 40% apresentam excesso de peso e 16% já possuem diagnóstico de obesidade.
O livro “Saúde Pública e Saúde Coletiva: Abordagens e Práticas para o Bem-Estar Social” aponta que o uso diário de eletrônicos é um causador do sedentarismo, da ausência de atividades físicas e piora da qualidade do sono. Como consequência, a ansiedade e o estresse também ficam maiores e neste exato momento eles correm para os alimentos que oferecem dopamina rápida.
As consequências mentais e emocionais causados pela obesidade
A psicóloga infantil Aline Bentlin, explica que, do ponto de vista psicológico, a obesidade pode impactar a criança na autoestima e na forma como ela se percebe no mundo, e um dos efeitos mais comuns está na autoestima.
Quando a criança percebe que seu corpo é alvo de comentários ou críticas, principalmente em ambientes como a escola, ela começa a desenvolver sentimentos de não pertencimento. Situações de bullying ou piadas sobre o peso geram tristeza, irritação e até levam ao isolamento social, fazendo com que a criança evite interações ou atividades em grupo.
Outro ponto crucial a respeito das consequências mentais dessa doença diante dos jovens e crianças está na distorção de imagem. Algumas crianças começam a se comparar às outras que fazem piadas sobre seu corpo e estão entre os padrões definidos como saudáveis e normais perante a sociedade. Desenvolvendo transtornos alimentares como anorexia, bulimia ou compulsão alimentar. “Quando a criança aprende que seu valor está apenas no corpo, ela pode começar a acreditar que precisa mudar quem é para ser aceita”, diz Aline.
A psicóloga diz que, em muitos casos, a alimentação pode se tornar uma fonte de refúgio para crianças que passam por dificuldades dentro e fora de seu lar. Quando ela está ansiosa, frustrada ou triste, pode recorrer à comida como uma tentativa de aliviar esses sentimentos. No momento da alimentação, a criança sente um alívio e sensação de prazer, mas o efeito é rápido, então essa sensação de felicidade dura pouco tempo, causando um efeito de vício na vida da criança e do adolescente.
A profissional também explica que o uso excessivo de telas é um grande contribuinte para essa doença. Ela explica que as telas podem aumentar níveis de ansiedade, reduzir o tempo de atividade física e, quando a criança come em frente à televisão, celular ou tablet, ela tende a perder a percepção da quantidade que está ingerindo, comendo mais do que precisaria. ”Muitas vezes, a comida não está tentando preencher o estômago da criança, mas sim um vazio emocional”, comenta.
Os efeitos causados no corpo por essa doença
A endocrinologista pediátrica, doutora Maíne Pieri, mostra que doenças que antes eram comuns apenas em adultos e pessoas mais velhas já se tornaram comuns em crianças e adolescentes com sobrepeso e obesidade. Doenças como, diabetes tipo 2, esteatose hepática metabólica, hipertensão arterial e síndrome metabólica.
A médica ainda mostra que existe um aumento gradativo na apneia obstrutiva do sono e alterações do timing pubera, ou seja, o distúrbio no qual o indivíduo sofre breves e repetidas interrupções da respiração enquanto dorme e o momento de início e velocidade do desenvolvimento sexual, especialmente puberdade mais precoce em meninas. Além das complicações metabólicas, existem repercussões ortopédicas e impactos psicológicos importantes.
Todas essas reações são doenças metabólicas e podem ser definidas como distúrbios da maneira de como o corpo do indivíduo obtém ou produz energia através de alimentos consumidos diariamente. Ou seja, pode haver falta ou excesso de substâncias necessárias para o bom funcionamento do corpo humano.
Ela ainda avisa que cerca de 70 a 80% das pessoas com essa faixa etária tendem a continuar obesas durante a fase adulta. “Hoje entendemos que a obesidade não é apenas consequência de excesso alimentar, mas sim resultado de uma desregulação metabólica influenciada pelo ambiente moderno”, afirma a endocrinologista.
A nutricionista infantil Caroline Vieira, indica os momentos e sintomas principais para os pais e responsáveis buscarem ajuda profissional no tratamento de seus filhos e dependentes. Os principais são quando a criança começa a querer escolher demais e evita alimentos naturais, decidindo comer apenas ultraprocessados.
Quando o ganho de peso está ficando desproporcional a altura da criança e com seu IMC (Índice de Massa Corpórea) superior ao indicado segunda a OMS (Organização Mundial da Saúde) e quando a criança começa a ficar estressada em horários de refeições, todos esses são momentos de total atenção para a busca de ajuda pediátrica.
A especialista também propõe mudanças simples na rotina que são capazes de evitar o sobrepeso e obesidade infantil, garantindo também uma melhor qualidade de vida, como evitar a compra de alimentos ultraprocessados, produzir comida caseira com alimentos nutritivos e naturais e, se for necessário comprar industrializados, procurar os que tem menos ingredientes e saber ler a tabela nutricional.
Também é indicado um ambiente mais confortável em família, evitando o uso de telas e aproveitando mais o tempo em mesa, garantindo uma interação positiva entre família. Além disso, o exemplo dos pais, mostrando que comem alimentos saudáveis, automaticamente os filhos verão como incentivo a farão igual.
Caroline também propõe atividades lúdicas, que proponham prazer e movimentos para a criança e o adolescente praticarem atividades físicas, e como consequência, o risco de sobrepeso e obesidade é menor.



