Plataformas desenvolvem métodos avançados de segurança após o crescimento dos golpes e estelionatos virtuais no último ano.
Renata Afonso
O Brasil registrou cerca de 90 mil queixas sobre crimes cibernéticos em 2025, quase 30% a mais que nos anos anteriores. Segundo análise da empresa de cibersegurança Kaspersky, as tentativas de golpes por mensagens falsas tiveram um aumento de 267% e o uso de Inteligência Artificial (IA) para criar imagens falsas (deep fakes) fez disparar os casos de misoginia (+225%) e de exploração infantil.
A SaferNet Brasil divulgou um relatório que evidencia o agravamento da violência sexual contra crianças e adolescentes em ambientes digitais. No primeiro semestre de 2025, o Canal Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos registrou 49.336 denúncias anônimas de abuso e exploração sexual infantil. A advogada especialista em direito digital, Hyanndra Ferreira, afirma que a exposição precoce de menores à internet, muitas vezes sem a supervisão de um responsável e o anonimato dos usuários em plataformas de jogos, vídeos e mensagens são os principais fatores que colaboram para o aumento dos golpes e exploração sexual infantil no ambiente virtual.
Para frear essa onda, plataformas populares como Roblox, Discord e YouTube implementaram a verificação multifatores. O sistema analisa o rosto do usuário em tempo real, garantindo que menores não acessem conteúdos perigosos e não tenham contato com maiores de idade. Ao mesmo tempo, o Ministério Público Federal (MPF) atualizou seus protocolos de investigação. O foco agora é o rastreamento rápido de endereços de protocolo de rede (IP) e a preservação de provas digitais para garantir que o anonimato da rede não resulte em impunidade.
A ameaça do phishing: a “pescaria” digital
A aposentada Maria Aparecida Ribeiro foi vítima de um estelionato virtual por meio de mensagens falsas em outubro do ano passado. O criminoso que se passava por um advogado em um aplicativo de mensagens utilizava de fotos de documentos alteradas com inteligência artificial para solicitar pagamentos em altos valores. “Ele me ligou, muito calmo, eu pensei que fosse meu advogado, e disse que eu devia depositar o dinheiro para fazer um teste do banco digital”, conta a vítima, que depositou o dinheiro e logo depois foi bloqueada pelo criminoso.
Um dos golpes mais incidentes registrados pelo MPF é o Phishing Scam. Trata-se do envio massivo de mensagens eletrônicas não solicitadas que utilizam “iscas”, como falsos comunicados da Polícia Federal ou instituições bancárias, para atrair o usuário a sites falsificados. O objetivo é capturar senhas e informações sigilosas ou instalar silenciosamente códigos maliciosos (malwares) no dispositivo da vítima.
O Tenente coronel Rodrigo de Fatima relatou que uma distinção jurídica importante destacada pelo MPF é a transferência fraudulenta de valores via Internet Banking.
“O problema maior não é o crime em si”, relata. O coronel questiona a forma de provar o crime, pensando na inteligência artificial e como as evidências digitais são facilmente manipuláveis.
“É possível que haja alterações pelo próprio criminoso na tentativa de ocultar rastros, ou mesmo pelo investigador, durante as etapas de aquisição e análise”, finaliza.
Segundo a jurisprudência consolidada do Superior Tribunal de Justiça (STJ), esse tipo de crime é frequentemente classificado como furto qualificado mediante fraude, e não apenas estelionato comum.
Orientações para as vítimas
O MPF enfatiza que a rapidez na preservação da prova é essencial para o sucesso da investigação:
Não apague nada: Vítimas devem manter e-mails, fotos, logs de chats e capturas de tela, pois essas evidências digitais são fundamentais para rastrear a autoria do crime.
Verificação de identidade: O uso de selfies para verificação de idade em redes sociais (como visto recentemente no YouTube e Roblox) surge como uma barreira preventiva contra o aliciamento de menores, um dos crimes cibernéticos mais monitorados pelas autoridades.
Ambiente seguro: Investigadores utilizam máquinas virtuais isoladas para analisar links suspeitos sem comprometer seus sistemas, uma prática que reforça a necessidade de o usuário comum nunca clicar em links de fontes desconhecidas.
Cuidado com as fotos: Evite postar imagens de crianças sozinhas, pois são alvos fáceis para manipulação por IA.
Denuncie: Se for vítima, guarde “prints” e links e procure a Polícia Civil ou o Ministério Público para denunciar o crime.



