Endividamento atinge diferentes setores da economia brasileira

In Economia

Juros elevados, créditos mais caros e dificuldades fiscais pressionam famílias, empresas e o setor público brasileiro.

Ellen Cristiny Andrade

O crescimento do endividamento e da inadimplência atingiu níveis recordes no Brasil em 2026. Segundo dados do Banco Central, a inadimplência no crédito livre chegou a 6,4% em julho, o maior nível da série histórica iniciada em 2011. De acordo com o Sebrae, o  endividamento não significa necessariamente inadimplência. Enquanto o primeiro inclui compromissos financeiros que ainda estão em dia, a inadimplência ocorre quando uma dívida deixa de ser paga no prazo. Os dois conceitos estão relacionados, mas representam situações diferentes dentro da vida financeira do consumidor. 

O que explica o avanço das dívidas?

A alta dos juros é um dos fatores que ajudam a explicar o cenário. A economista Najla Basso explica que quando a taxa básica de juros da economia, a Selic, permanece elevada, o custo de diferentes modalidades de crédito também tende a aumentar. Financiamentos, empréstimos e outras operações ficam mais caros, dificultando o pagamento das parcelas para quem já possui o orçamento comprometido.

“A alta dos juros também afeta as empresas, uma vez que os empresários também utilizam esse investimento como base para investimentos de crescimento”, ressalta. A economista conta que parte desse aumento pode chegar aos preços pagos pelos consumidores. Outro fator apontado por Najla é a alta do dólar. A valorização da moeda norte-americana pode encarecer produtos importados e insumos utilizados pela indústria, pressionando os custos de produção e, consequentemente, os preços finais.

Além dos fatores econômicos, o baixo poder de compra também contribui para o agravamento das dívidas. Para Najla Basso, a educação financeira é importante, mas não explica sozinha o problema. “Inflação, alto custo de vida, o custo do crédito, aliado ao baixo poder de compra das famílias têm afetado muito a inadimplência”, afirma.

Endividamento no governo

A dívida pública também permanece elevada. Segundo o Banco Central, a Dívida Bruta do Governo Geral chegou a 82,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em julho de 2026, o equivalente a R$10,9 trilhões. O indicador reúne as dívidas do governo federal, do INSS e dos governos estaduais e municipais.

Para a economista Najla, o déficit fiscal, quando o governo gasta mais do que arrecada, é um dos principais fatores relacionados ao endividamento público. Segundo ela, entre os gastos estão as despesas com a Previdência e o pagamento dos juros da própria dívida pública.

De acordo com o Banco Central, a evolução da dívida em julho foi influenciada principalmente pelos juros e pelas emissões líquidas de dívida. Nos 12 meses até julho, os juros do setor público somaram R$1,15 trilhão, equivalente a 8,67% do PIB.

Endividamento nas empresas

O cenário de endividamento também atinge as empresas. Segundo um levantamento da Serasa Experian, 9,2 milhões de empresas estavam inadimplentes no país em julho de 2026. As dívidas em atraso somavam R$238,6 bilhões, com uma média de 7,3 contas negativadas por empresa.

O crédito também faz parte da rotina financeira das empresas. Dados do Banco Central mostram que, em doze meses, o crédito total aumentou 9,5%, com altas de 7,5% no crédito às empresas e que a necessidade de capital de giro está entre os principais fatores relacionados à demanda por crédito das micro, pequenas e médias empresas. Ao mesmo tempo, as taxas de juros aparecem entre os fatores que influenciam essa demanda. 

Para Najla Basso, o aumento do endividamento também pode gerar efeitos sobre a atividade econômica. “Com o aumento do endividamento, as pessoas tendem a consumir menos. Com o menor consumo o caixa das empresas é afetado diretamente. O que por outro lado pode afetar o desemprego”, destaca.

Endividamento nas famílias

O endividamento das famílias brasileiras alcançou um nível recorde e conforme dados da CNC, 82% das famílias estavam endividadas em julho, o maior percentual da série histórica iniciada em 2010. Entre os principais compromissos financeiros estão cartões de crédito, carnês de lojas, financiamentos, cheque especial e empréstimos pessoais.

O cartão de crédito aparece como uma das principais formas de endividamento e, em alguns casos, passa a ser utilizado para complementar a renda. De acordo com a economista Najla Basso, o crédito também tem sido usado para despesas básicas.

“Como mentora financeira, vejo muitas pessoas utilizando o cartão de crédito e empréstimos para suprir necessidades básicas do dia a dia como supermercado, combustível, e algumas até ao pagamento de contas básicas do dia a dia’’, relata.

Quando o orçamento não é suficiente para cobrir todos os compromissos, as dívidas podem passar a disputar espaço com despesas essenciais. A advogada Maria Eduarda Sade explica que a situação pode chegar a um ponto em que a família precisa escolher quais contas consegue pagar.

“Chega um ponto em que a pergunta deixa de ser, o que eu preciso pagar, e passa a ser, o que eu vou escolher pagar. As famílias precisam escolher entre o alimento ou a dívida, as contas básicas de casa ou o cartão de crédito, os medicamentos ou a parcela do empréstimo’’, explica.

O endividamento também pode levar à contratação de novas dívidas para tentar quitar as anteriores. A advogada acrescenta que o problema atinge o bolso das famílias ao mesmo tempo que atinge a economia brasileira, que para pagar uma dívida, a pessoa pode fazer outra. Com o tempo, os novos débitos se acumulam e a dívida aumenta, criando um efeito de “bola de neve”.

 Impacto das dívidas

A experiência da estudante, Izadora Marques, mostra como uma dívida pode crescer a partir de um valor inicialmente pequeno. Ela conta que começou utilizando o cartão para complementar o orçamento e não conseguiu quitar a fatura no mês seguinte.

”Quando eu vi, tinha virado uma bola de neve. O que era pouca coisa virou uma dívida que eu não conseguia mais controlar, por causa dos juros”, relata.

Para tentar quitar o cartão, Izadora recorreu a um empréstimo, mas a solução aumentou o número de compromissos financeiros. “Na hora aliviou, mas depois eu fiquei com a parcela do empréstimo e o cartão estourado de novo. Parecia que eu estava cavando um buraco cada vez maior”, conta.

Ela diz que a experiência mostrou como recorrer a um novo crédito para pagar uma dívida pode prolongar o problema e aumentar o comprometimento da renda. Quando a dívida chega a esse ponto, conhecer os direitos e as alternativas para reorganizar a situação financeira se torna uma das formas de buscar uma saída.

Direitos e caminhos para sair do endividamento

A inadimplência não retira os direitos do consumidor. Segundo a advogada Maria Eduarda Sade, a negativação do nome, em regra, não pode passar de cinco anos. O consumidor também pode contestar cobranças abusivas e cláusulas ilegais do contrato.

De acordo a advogada, na cobrança judicial, bancos e empresas podem solicitar o bloqueio de contas e a penhora de bens, mas existem limites. “Na cobrança judicial, o banco pode penhorar bens e bloquear contas, mas com limites. A lei protege determinados bens e valores como impenhoráveis, como o bem de família e o salário, por exemplo”, explica.

Segundo Maria Eduarda, essas medidas dependem de decisão judicial e não podem ser determinadas diretamente pelo banco. Medidas como o bloqueio da CNH e a apreensão do passaporte são excepcionais. “São, porém, medidas excepcionais, que dependem da decisão de um juiz e não acontecem de forma automática nem por decisão do próprio banco”, afirma.

Diante do comprometimento da renda familiar com o pagamento da dívida , a Lei nº 14.181/2021, conhecida como Lei do Superendividamento, busca preservar o chamado mínimo existencial, valor necessário para garantir a subsistência do consumidor e de sua família.

A advogada explica que entre os caminhos legais estão ações para revisar juros e cláusulas ilegais, limitar descontos de empréstimos consignados e reorganizar as dívidas por meio da ação de superendividamento. A escolha depende da situação financeira e do tipo de dívida de cada consumidor. Além da reorganização das dívidas, a educação financeira pode ajudar na prevenção de novos casos de inadimplência. Para a economista Najla Basso, a estabilidade fiscal e monetária também é necessária para melhorar as condições econômicas e o poder de compra das famílias.

Para Maria Eduarda, a renegociação também exige planejamento. Antes de aceitar um acordo, é necessário avaliar se a parcela cabe no orçamento, quais são os juros cobrados e se o saldo devedor continuará aumentando. “Renegociar sem planejamento é trocar uma dívida por outra”, finaliza.

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