Maior campeonato de fisiculturismo do país distribui 24 Pro Cards entre os dias 16 e 18 de outubro.
Vefiola Shaka
O Mr. Olympia Amateur Brasil 2026, também conhecido como Mr. Olympia Amateur South America Brasil, começa nesta sexta-feira (16) no Distrito Anhembi, em São Paulo, e segue até domingo (18). O evento é o maior campeonato de fisiculturismo amador do país e distribui 24 Pro Cards, certificados que permitem aos vencedores se tornarem atletas profissionais da IFBB Pro League. Segundo a página oficial do evento, a organização informa números de mais de 25 mil visitantes, 39 expositores, 2.500 lojistas e 100 jornalistas.
Além da competição, o evento funciona como uma grande feira de nutrição esportiva e fisiculturismo, com expositores, lojistas de suplementos, farmácias, sites de produtos naturais, supermercadistas, profissionais do setor e fãs do estilo de vida saudável. Outras competições do evento incluem Powerlifting, Power Bíceps, luta de braço e Wushu Sanda, que é uma luta de artes marciais chineses.
Do Mr. Olympia ao Mr. Olympia Amateur
O Mr. Olympia é o título concedido ao vencedor do campeonato de fisiculturismo profissional masculino do Olympia Fitness & Performance Weekend, criado por Joe Weider. A primeira edição aconteceu em 18 de setembro de 1965, em Nova York. Já o Mr. Olympia Amateur premia os melhores competidores amadores do mundo com o Pro Card, o que os deixa mais próximos de competir no palco principal.
No Brasil, o campeonato é realizado desde 2018. A primeira edição foi apresentada pela BTFF (Brasil Trading Fitness Fair), com 640 atletas disputando em seis categorias. Os três melhores de cada uma receberam o Pro Card. Para quem quer competir, a inscrição é feita pelo site oficial da Muscle Contest International. A taxa é de R$ 850 para a primeira categoria, com valores adicionais para quem quiser disputar mais de uma.
Eduardo da Silva Degasperi, atleta NPC e competidor de fisiculturismo amador, já participou de dois campeonatos da Muscle Contest, em Piracicaba em 2024 e em Sorocaba em 2025. Ele explica que a competição é dividida por categorias, cada uma com um critério principal. “Cada categoria tem um objetivo, um critério principal”, afirma.
Leonardo Silva, também atleta NPC, estreou em 2023 no Muscle Contest Sorocaba, no qual ficou entre os seis melhores da Men’s Physique. “Neste ano participei no Muscle Contest Paulínia e conquistei o primeiro lugar na Classic Physique Open A e na Men’s Physique Open B”, diz.
As categorias
A competição é realizada em categorias diferentes. Entre os homens, as divisões são Men’s Physique, Classic Physique e Bodybuilding. Entre as mulheres, competem Bikini, Wellness, Figure, Women’s Physique e Fitmodel.
Segundo Eduardo, no Men’s Physique o atleta sobe ao palco de bermuda, em uma proposta que lembra um físico de praia. “O tronco normalmente é um pouco maior, é um shape mais em V”, explica. Leonardo acrescenta que a categoria prioriza “um físico atlético, proporcional e estético”. Já o Classic Physique, categoria de nomes conhecidos como Ramon Dino e Cbum, resgata os físicos clássicos do passado. “Leva muito em consideração a simetria. Não é tanto volume, mas tem que ser harmônico”, destaca Eduardo. Para Leonardo, a categoria exige preocupação com a estética clássica, as proporções, a linha de cintura e a harmonia muscular.
A terceira categoria masculina é o Bodybuilding, que no profissional não tem limite de peso. “É priorizar realmente o volume. Quanto maior o atleta, melhor, mas ele tem que estar seco também em cima do palco”, salienta Eduardo.
Apesar das diferenças, as três categorias masculinas seguem o mesmo julgamento, baseado em definição, simetria e volume. “Não adianta o atleta ter bastante volume, ser simétrico e não estar seco, ele vai perder ponto. Mas também não adianta ser super simétrico, super seco e ser pequeno. Quem tiver esses três pontos mais equilibrados começa a ter vantagem”, relata Eduardo.
No amador, cada categoria é dividida por altura e peso. Cada divisão tem um campeão, e todos eles se enfrentam no Overall. “É o campeão dos campeões, o ápice daquele campeonato”, conta Eduardo. Também há subdivisões como Júnior, Master (para atletas acima de uma determinada idade, como 35 ou 40 anos) e Novice, para quem nunca venceu um overall.
A preparação dos atletas
A preparação varia de acordo com cada atleta e treinador, mas costuma seguir um padrão de tempo. “Normalmente dura entre 12 e 16 semanas, podendo chegar a 18 ou 24 semanas no máximo, que foi o que eu já cheguei a ver”, explica Eduardo.
Nesse período, o atleta e o preparador montam uma estratégia que é ajustada conforme o corpo responde. “A gente vai reduzindo as calorias, aumentando o cardio e o treino. Quando vai chegando próximo ao campeonato, falta uma semana, a gente usa uma estratégia para desidratar”, detalha Eduardo.
Enquanto no pré-palco, o atleta explicou que os fisiculturistas usam o que chamam de “bomba de sódio e carbo” para que o músculo pareça mais cheio.
Leonardo lembra que a preparação envolve planejamento alimentar, treino, cardio, descanso e acompanhamento profissional, e inclui também o treino de poses. “Não adianta construir um bom físico e não saber apresentá-lo”, destaca. Para ele, o resultado depende de constância. “Ele é construído diariamente, com disciplina, dedicação e renúncias”, afirma.
Para a nutricionista clínica funcional Kelly Barboza, é preciso entender o esporte antes de olhar para a dieta. “O fisiculturismo é um esporte que a gente não pode chamar de metabolicamente saudável, embora construa um corpo muito bonito esteticamente”, afirma. Ela ressalta que o que é adotado pelos atletas não deve ser aplicado por quem busca um estilo de vida saudável.
Bulking e cutting
A rotina alimentar é dividida em duas fases. A primeira é o bulking, voltada ao ganho de massa. “Para construir novas fibras musculares, vai precisar de muita energia. É a fase de superávit calórico”, detalha Kelly. Mesmo controlada, essa fase costuma vir acompanhada de gordura.
A segunda fase da preparação é o cutting, e segundo a nutricionista isso se trata de definição.
“O músculo está ali por baixo, mas não está aparecendo. Preciso eliminar a gordura de cima, então o nutricionista reduz as calorias, mas mantendo a massa muscular que foi ganha na fase anterior”, explica. As duas etapas não acontecem ao mesmo tempo. “Elas são fisiologicamente antagônicas, não dá para acontecer as duas simultaneamente”, destaca.
Kelly afirma que o acompanhamento precisa ser preciso nas duas fases. No bulking, ela chama atenção para a qualidade do que se come. “Tem que tomar cuidado com o tipo de carboidrato. Não é simplesmente comer caloria”, afirma. Já no cutting, a redução precisa ser gradual. “Quando tem uma redução repentina, o corpo desacelera o metabolismo para se proteger”, relata.
Os riscos para a saúde
De acordo com Kelly, a alternância entre comer muito e restringir muito pode trazer consequências. Nas fases de excesso, a nutricionista cita problemas como resistência à insulina e gordura no fígado. “Um bulking descontrolado pode levar à resistência à insulina, à esteatose hepática e ao aumento do colesterol LDL e dos triglicerídeos”, explica. O excesso também pode afetar o intestino e a imunidade. “Você vê com facilidade atletas gripados recorrentemente”, observa.
Na restrição extrema, os efeitos são hormonais e físicos. “A testosterona vai ser impactada, o cortisol também, e os hormônios tireoidianos”, detalha. Se a restrição for recorrente, a saúde óssea também pode ser comprometida.
Há ainda o impacto psicológico. “O excesso de carboidrato pode gerar ansiedade e distúrbios de sono”, conta. Ela diz que a pressão por resultado pode afetar a forma como o atleta enxerga o próprio corpo. “Acontece muito de acabar tendo um distúrbio alimentar por uma distorção de imagem corporal”, relata.
Leonardo também aponta o equilíbrio físico e mental como um dos maiores desafios, e lembra que o fisiculturismo é um esporte de comparação. “No dia do campeonato, a tensão aumenta. “Existe toda a tensão do backstage, a pintura, o aquecimento, o controle emocional e a expectativa de mostrar em poucos minutos o trabalho de meses de preparação”, finaliza.
Um esporte de 24 horas
Para Eduardo, o maior desafio da preparação é a rotina. “O fisiculturista tem que ser atleta 24 horas por dia. Se perde duas, três horas de sono, influencia no físico. Tudo influencia”, afirma.
Esse nível de controle exige abrir mão de outras coisas. “Você perde alguns eventos sociais para privar o seu sono e o seu descanso. A dificuldade é mais mental e social, mas quem se colocou à prova disso tem que estar preparado”, finaliza Eduardo.



