Participação política da população idosa aumenta com avanço do envelhecimento no país
Nicoly Maia
Um levantamento recente da Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados, com base em dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), revelou que o número de eleitores com mais de 60 anos cresceu 74% entre 2010 e 2026, passando de 20,8 milhões para 36,2 milhões de votantes. Hoje, esse grupo já representa cerca de um quarto do eleitorado brasileiro.
O aumento acompanha o envelhecimento da população brasileira e também uma maior participação política da terceira idade. Para a gerontóloga Márcia Chagra, que estuda e acompanha o processo de envelhecimento, os idosos estão mais atentos ao cenário político e estão acompanhando constantemente notícias pela televisão, rádio e internet. “Mesmo aqueles com pouca escolaridade gostam de acompanhar o que acontece no país e têm opinião formada sobre aquilo que afeta diretamente suas vidas”, afirmou.
Segundo a especialista, temas como saúde, aposentadoria, segurança e o preço dos medicamentos aparecem entre as principais preocupações dos eleitores acima dos 60 anos. Ela explica que, muitas vezes, o voto desse público está diretamente ligado às dificuldades enfrentadas no cotidiano. “Eles percebem quando falta médico, quando o remédio aumenta ou quando o atendimento piora. Sentem isso no bolso e na rotina”, destacou.
Redes sociais ampliam debate político entre idosos
O sociólogo Eraldo de Aconsoerde Pereira avalia que a internet transformou a relação dos idosos com a política. Segundo ele, muitos aposentados passaram a acompanhar debates políticos diariamente pelas redes sociais. “Para muitos, a política se tornou a principal pauta da vida deles”, afirmou.
O pesquisador também aponta que o avanço das redes sociais trouxe novos desafios, especialmente relacionados à desinformação. De acordo com ele, notícias falsas e teorias da conspiração circulam com facilidade entre o público mais velho. “Antigamente as informações vinham da televisão. Hoje muitos recebem conteúdo pela internet, onde teorias da conspiração e notícias falsas são mais comuns”, explicou.
Preconceito ainda é desafio
Apesar do crescimento da participação política, os especialistas alertam para o preconceito ainda existente em relação aos idosos. Márcia Chagra afirma que muitas pessoas ainda enxergam os eleitores idosos como desinformados ou facilmente manipulávelis, o que, segundo ela, não corresponde à realidade. “Muitos podem não ter estudo técnico, mas têm vivência, memória e percepção das mudanças que aconteceram ao longo dos anos”, disse.
Ela prossegue destacando que campanhas políticas ainda não dialogam adequadamente com o público 60+, muitas vezes tratando idosos de maneira infantilizada.
A participação eleitoral também é vista como uma forma de pertencimento social na velhice. A gerontóloga relata que acompanha idosos que aguardam ansiosamente o período eleitoral para discutir política e expressar opiniões. “Muitos gostam de sentir que ainda fazem parte das decisões e que a voz deles continua importante”, comentou.
O aposentado Antonio Borba, de 63 anos, afirma que nunca deixou de votar e acredita que a participação dos idosos pode influenciar diretamente o futuro do país. “Hoje a gente acompanha tudo pelo celular. Eu vejo notícia, assisto debate e converso com os meus vizinhos sobre política. Acho importante votar pensando nos nossos direitos e também nos netos”, contou.
Influência crescente nas eleições
O crescimento dos eleitores com mais de 60 anos já começa a alterar estratégias de campanhas políticas. Os dados da Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados mostram que a abstenção entre idosos diminuiu nas últimas eleições, inclusive entre pessoas acima dos 70 anos, faixa em que o voto é facultativo.
Para os especialistas Eraldo e Marcia, a tendência é que a influência política da população idosa continue aumentando nos próximos anos, pressionando governos e candidatos a discutir temas ligados à saúde pública, acessibilidade, aposentadoria e qualidade de vida.



