Adaptações de livros são destaque do Oscar 2026

In Cultura
Adaptações de livros são destaque do Oscar 2026

Especialistas destacam que a prática pode incentivar a leitura e contribuir para o crescimento literário.  

Vitória Amábili

A cerimônia de premiação de cinema mais conhecida mundialmente vai acontecer neste domingo, 15 de março. O Oscar, fundado em 1927 pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, atrai o público anualmente para a apreciação das obras audiovisuais desenvolvidas ao redor do mundo. Filmes de diversos países são indicados e nomes de produtores e atores participam da noite que escolhe os vencedores das categorias através de uma votação dirigida pelos membros da Academia.

A premiação terá início às 20h da noite (horário de Brasília), e contará com mais de três horas de duração para anunciar os vencedores das 24 categorias. O evento poderá ser acompanhado pela TV aberta Globo e também na plataforma de streaming Max, sendo apresentado pelo comediante e apresentador de televisão americano Conan O’Brien. A ABJ Notícias faz a cobertura em tempo real.

Para além de produções inéditas, o Oscar conta com diversas adaptações de obras literárias clássicas e, para quem busca uma nova leitura de cabeceira, os vencedores da premiação são uma excelente opção. Alguns nomes se destacam este ano, dentre eles “Hamnet”, obra que narra a história de amor inspirada no livro de William Shakespeare; “Sonhos de Trem”, drama que se passa nos Estados Unidos e “Frankenstein”, obra da escritora britânica Mary Shelley.

Clássico literário X adaptação 

“Hamlet”, clássico literário do escritor William Shakespeare, foi escrito entre 1599 e 1601, uma trama que se desenrola entre intrigas políticas, dramas familiares e reflexões filosóficas. O conflito da trama começa quando o fantasma do rei aparece para o príncipe e revela que foi morto pelo seu próprio irmão, que após o assassinato se casou com a rainha. Perante essa descoberta, o protagonista começa a investigar e planejar uma vingança. 

O livro é conhecido como um dos maiores clássicos da literatura, e sua adaptação ao cinema, agora indicada ao Oscar, enriquece o mundo audiovisual. 

Clássicos como estes são apresentados nas escolas e universidades muitas vezes como leituras obrigatórias e, por diversas vezes, os estudantes recorrem ao resumo da internet para não encarar um livro grande, maçante e de linguagem culta. Porém, quando adaptados esses livros ganham mais respeito e visibilidade na sociedade, e a busca pelas edições mais bonitas dispara. Escritor e apaixonado pelas letras desde criança, Renato Domingos Laserra sempre foi incentivado por professores e amigos a participar de oficinas de escrita e leitura, até que começou a escrever suas próprias histórias e a desenvolver seus personagens. “A linguagem dos clássicos, inclusive em determinadas traduções, apresenta um grau de compreensão cada vez maior a cada nova geração e adaptações podem facilitar a compreensão da história e despertar um novo olhar para a obra”, comenta o escritor. 

Além das adaptações facilitarem a compreensão de obras clássicas, elas também contribuem para o crescimento da procura literária no país. Renato discorre a ideia de que quem gosta de ler irá continuar lendo, e as produções audiovisuais irão servir como um auxílio para a disseminação da literatura e não um empecilho para a mesma. “O grande investimento em publicidade pode tornar uma obra muito mais conhecida. Caso o filme faça sucesso, muitas pessoas ficarão curiosas para ler o livro também”, explica o escritor. 

O Oscar de Melhor Fotografia

O romancista americano Denis Johnson foi o responsável pela história publicada em 2012 que inspirou a adaptação de “Sonhos de Trem”, produção audiovisual indicada a 4 categorias no Oscar. A trama acontece nos Estados Unidos no começo do século 20, e acompanha a história de um lenhador que vive sua vida de forma calma e monótona. Joel Edgerton, ator australiano, foi o responsável por dar vida a Robert, personagem que encontra o amor e a perda, e precisa aprender a lidar com esses sentimentos em meio a idas e vindas para a casa. 

Filmado com 99% de luz natural no Noroeste dos Estados Unidos, o filme conta com uma indicação à categoria de Melhor Fotografia, com a direção do fotógrafo brasileiro “Adolpho Veloso”. A direção de fotografia é uma das muitas funções que envolvem a criação de um filme e no cinema une-se os elementos textuais com os sons e imagens. Também conhecida como cinematografia, é responsável pelos movimentos da câmera, zoom e várias técnicas que ajudam o telespectador a compreender o que está em cena.

Fotógrafo há mais de 20 anos e pós-graduado na área, Rafael Fischer explica que a fotografia não é só técnica, mas que ela dá o clima emocional, situa a história no tempo e decide o que o público irá sentir. “Frankenstein’ aposta no gótico pesado para reforçar o horror; ‘Pecadores’ usa elementos de época para criar uma tensão constante; ‘Uma Batalha Atrás da Outra’ entrega um trabalho que muitos chamam de ‘cinema na veia’; e Sonhos de Trem abraça a luz natural para criar um isolamento poético e destacar a transformação da paisagem americana”, situa o fotógrafo. 

Para Rafael, a indicação do brasileiro ao Oscar de Melhor Fotografia é histórica e eleva-o a um grupo raríssimo. “Ele venceu Critics Choice, Independent Spirit Awards e ainda foi indicado ao BAFTA e ao Globo de Ouro. É um currículo gigante, ainda mais considerando que ele filmou praticamente tudo com luz natural, numa pegada contemplativa das paisagens norte-americanas. Somado aos planos-sequência, isso fala direto ao meu coração de fotojornalista”, conta. 

Existe diferença na produção? 

Outro queridinho da noite é a adaptação de “Frankenstein”, da escritora britânica Mary Shelley, o livro que inaugurou a Ficção Científica. Na nova adaptação, Victor é um menino treinado pelo pai ao longo dos anos para se tornar um poderoso médico. Com estudos intensos e punições quando não sabia responder alguma pergunta, ele se vê indignado quando a mãe falece e o pai não a pode salvar. Sua situação familiar foi o que o instigou a continuar estudando para encontrar as respostas para a morte. Buscando apoio para sua pesquisa, ele começa a criar um ser que é fundido de partes de seres humanos diferentes, com o objetivo de dar a vida aquele ser e o tornar imortal. 

Ao olhar do filmmaker e fotógrafo Luís Vinicius Pontes, o filme tem grandes chances nas indicações. Formado em Comunicação Social – Rádio e TV, ele explica que cinema é o equilíbrio entre texto, imagem e som, enquanto livros se apoiam totalmente na escrita para passar significados. “Existem histórias que são melhor expostas pelo meio imagético, e outras que se sustentam apenas nas palavras. Acho que a relação existente entre essas duas formas de arte deve ser baseada em respeito à estrutura. Já vi muitos livros ‘fracassarem’ em suas adaptações para o meio cinematográfico, e muitos escritos que se mostraram mais confortáveis e proveitosos quando se tornaram filmes”, para ele quando se respeita o meio e o artista, não existe espaço para a comparação, pois os dois produtos em si já são excelentes. 

Em termos técnicos, ele explica que livros e filmes são basicamente iguais, mas que as adaptações exigem uma criatividade por precisar explicar os detalhes do que é visto e escutado. “Depois da vitória de ‘Ainda Estou Aqui’, no Oscar de 2025, comprei o livro de Marcelo Rubens para apreciar a história como um todo, e os dois meios são bem diferentes. O livro aborda muito sobre a experiência da família em lidar com o Alzheimer da mãe, enquanto no filme essa dor nem é abordada de fato, apenas referenciada ao final do filme com a atriz Fernanda Montenegro”, conta o filmmaker. Mas essas diferenças não tornam nenhuma das obras falhas, Luís explica que o que triunfou de verdade foi a experiência do diretor Walter Salles com a família durante os acontecimentos da história.

Para quem sempre esteve aqui 

Há 10 anos atrás o livro “Ainda Estou Aqui”, do escritor Marcelo Rubens, era premiado no Prêmio Jabuti, sendo reconhecido e aclamado nacionalmente. O que o escritor não imaginava é que anos depois o seu livro renderia uma adaptação nacional vencedora da categoria Melhor Filme Internacional no Oscar 2025, colocando o Brasil na história da premiação. Um livro sensível, intenso e direto, este foi o palco de Rubens ao contar a história da sua família na Ditadura Militar. 

Eunice, mãe de cinco filhos e esposa de Rubens Paiva, ex-deputado, é a personagem principal do enredo. A história é sensível e narrada por Marcelo, filho do casal, que demora a perceber que o seu pai havia sido levado de casa pelos militares na Ditadura Militar. No decorrer da trama, os irmãos são separados e Eunice precisa se reinventar para manter a família unida. Essa mãe se recusa a deixar transparecer tamanha tristeza e dor, transformando esses sentimentos em gás para estudar Direito e buscar as respostas e justiça pelo desaparecimento do marido.

Uma história profunda e impactante, que anos após a sua publicação virou um dos melhores filmes nacionais dos últimos tempos. Na 97° edição do Oscar, o Brasil levou a melhor na categoria de Melhor Filme Internacional com “Ainda Estou Aqui”. 

A obra foi produzida pelo diretor brasileiro Walter Salles e contava com grandes nomes no elenco, dentre eles Fernanda Torres e Selton Mello. Nessa super produção brasileira, o encanto pela arte cresceu no coração dos brasileiros, que comemoram a indicação às categorias como se já tivessem ganhado, e a premiação no dia 2 de março de 2025 como a final da Copa do Mundo. 

Radialista, Matheus Miranda é um entusiasta do cinema, da sua formação ao seus hobbies as produções audiovisuais fazem parte do seu dia a dia. Para ele, clássicos literários são mais fáceis de entender quando adaptados para o audiovisual, pois chamam mais atenção do que um livro, principalmente quando ganham notoriedade internacional. Ele também comenta da importância dos filmes brasileiros ganharem tamanha visibilidade, e o quanto isso mostra o cinema como histórico. “Nesse sentido, a galera toda vai ver mensagens que não viram se fosse só um livro, por exemplo. Em 2025 “Ainda estou aqui” influenciou o STF para reabrir o debate sobre a lei da anistia.” Para além de reabrir debates, o público percebe esse tipo de mudança e começa a dar voz para os temas, comenta Matheus.

Em complemento as produções históricas, adaptações literárias da cultura pop estão cada vez mais em alta e alcançando o coração do público. Para Matheus, um forte exemplo disso é o filme “O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei”, ganhador de todas as categorias indicadas. “É o único filme com 100% de aproveitamento, ele ganhou todas as categorias que ele foi indicado, foram 11 Oscars naquele ano (2004). E é um clássico literário, escrito por um cristão, aborda esses valores e eu com certeza iria recomendar por toda a história que envolve”, indica o radialista.

Bolão da noite do Oscar

Pelo segundo ano, o Brasil está aguardando ansiosamente o dia da premiação do Oscar, isso porque o filme pernambucano escrito pelo diretor e produtor Kleber Mendonça Filho, “O Agente Secreto”, está concorrendo a quatro categorias na maior premiação de cinema do mundo. A expectativa é alta para a noite, que contará com a participação de Wagner Moura, concorrendo à premiação de Melhor Ator por dar vida a Marcelo, personagem principal do filme. A espera é de uma noite de comemoração por parte dos atores, diretores e público.  

Por uma opinião popular e conteúdos jornalísticos, “Pecadores” e “Hamlet” são os maiores concorrentes de Renato para a categoria de Melhor Filme, além do queridinho dos brasileiros. Com um olhar apurado de fotógrafo, para Rafael a categoria de Melhor Fotografia vai para Michael Bauman (Uma Batalha Após a Outra), por estar sendo muito citado entre os especialistas e por ganhar o prêmio ASC. Para Luís, o diretor Paul Thomas Anderson de “Uma batalha após a outra” vai levar a maioria dos prêmios da noite, incluindo melhor diretor e roteiro adaptado. E para Matheus, o Oscar tem o poder de trazer voz para as pessoas que geralmente não a tem, e por isso filmes como “O Agente Secreto” e “Hamlet” tem fortes chances de surpreender na categoria de Melhor Filme; suas apostas para a Melhor Atriz vão para Jessie Buckley, por dominar as pesquisas e outras premiações.

You may also read!

Taxa de xenofobia cresce no Brasil 

É preciso questionar a fama de um país acolhedor quando os dados de discriminação e xenofobia são alarmantes. Nátaly

Read More...
O medicamento protege contra o vírus, que é o principal causador de casos de bronquiolite e pneumonia em crianças menores de dois anos.

Imunizantes para bebês prematuros contra bronquiolite implementa quadro de vacinas do SUS

Falta de informação sobre a vacina impede prevenção à doença em bebês. Vitória Amábili  O Sistema Único de Saúde

Read More...

O espaço do militarismo na vida de mulheres

Caroline Aguiar conta como a nova oportunidade para as meninas a partir do alistamento voluntário beneficia quem sonha com

Read More...

Leave a reply:

Your email address will not be published.

Mobile Sliding Menu