Caroline Aguiar conta como a nova oportunidade para as meninas a partir do alistamento voluntário beneficia quem sonha com carreira militar, assim como ela sonhou e realizou.
Raíssa Oliveira
“O que você quer ser quando crescer?”. Essa é a clássica pergunta que todas as crianças recebem milhares de vezes e por várias pessoas diferentes durante a infância. Muitas carregam a resposta na ponta da língua e sonham bem alto, respondendo com um sorriso divertido no rosto e uma animação enorme que faz até os adultos imaginarem que podem ser o que quiserem e voltar à infância para sonhar sem tantas responsabilidades e boletos. Astronauta, jogador de futebol ou bailarina. As alternativas são tantas que os pequenos mudam de ideia a cada semana e, dependendo do gênero, as respostas são mais nichadas.
Entretanto, quando a adolescência bate na porta e o último ano do Ensino Médio começa a focar mais no vestibular do que nas provas curriculares, o desespero e incerteza dos formandos mostram que nem tudo que um dia foi sonhado, pode ser de fato realizado ou continua fazendo parte dos planos. Carol fazia parte do grupo de crianças que não sabia responder quando era questionada sobre o futuro, nenhuma alternativa brilhava aos olhos.
A trajetória para ingressar na carreira
Caroline Aguiar flertou com Medicina enquanto já estava no Ensino Médio, mas faltando apenas um ano para encerrar os estudos no Colégio Militar, se sentiu perdida. Ela nunca quis seguir a carreira base da disciplina que recebeu nos últimos três anos da Educação Básica e que observava em casa através do pai. Até porque estudar lá era uma insistência do sargento que guiou seus passos desde que nasceu e, como boa filha, acatou o pedido.
Carol fala sorrindo ao mesmo tempo que sorri com os olhos e, quando toca no assunto da sua trajetória, por trás da voz doce é perceptível sentir um peso desse amadurecimento que precisou ter desde pequena por ser a irmã mais velha. Com o nascimento da sua nova melhor amiga, ela precisou repensar os seus planos, por meio da orientação dos pais, para que a irmã também pudesse ter uma boa educação, ou seja, a educação pública no âmbito militar foi a alternativa que seus pais encontraram para conceder boas condições de ensino.
Apesar de prestar o Exame Nacional do Ensino Médio no final do ano de 2016, ano da sua formatura nesta fase da educação, não sabia o que faria com a nota. Apesar da falta de interesse pelos assuntos militares, repensou as decisões na reta final dos estudos porque, sem muitas alternativas, ela percebeu que gostava de traços que envolviam o militarismo, aspectos ensinados e praticados no colégio em que estudava em Juíz de Fora. O seu pai aproveitou essa oportunidade e a incentivou para prestar um concurso e, na época, Carol começou a prestar a prova para a Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx).
O peso por trás da voz doce de Carol retorna ao falar dos momentos difíceis de preparação para a aprovação no concurso. Apesar de todo o apoio da família e a dedicação total aos estudos, Carol não passou no concurso que tanto almejava, mesmo após quatro anos de tentativa. Quando as suas esperanças estavam se esvaindo, pensou em fazer a prova da Escola de Sargentos das Armas (ESA) mesmo sem se dedicar especificamente para ela e passou de primeira. O orgulho transparecia em seu rosto ao contar da aprovação de 2019.
“Quando eu cheguei em casa, meu pai perguntou e eu falei: acho que pode ser, eu não vou comemorar, mas eu acho que pode ser. E aí eu fui corrigir com base em gabaritos de cursinho e tudo mais, e eu fui super bem na prova, fui muito bem. E aí já comecei a treinar na parte física e tudo mais, porque eu tinha certeza que tinha chances de passar”, enfatiza.
Ela explica a aprovação porque, como estudou muito para a EsPCEx, a ansiedade tomava conta na hora da avaliação e foi um momento muito desafiador na sua trajetória. “Eu acho que até por conta de ter um limite, se eu não passar até os meus 21 anos, já não consigo mais. E tem também o fato de ver amigos, meus amigos passando, fazendo faculdade já, e eu lá, sem fazer nada, só estudando. Era um sentimento ruim. Eu digo pra todo mundo que eu só passei no concurso da ESA porque eu nunca estudei pra ESA, porque eu fui fazer a prova. Vou fazer e vou ver como é que vai ser, assim como foi no Enem também”, relembra.
Portas abertas para as mulheres
Aliás, a EsPCEx abriu vagas para as mulheres justamente no ano em que Carol prestou a prova pela primeira vez, em 2016. Dez anos depois, em 2026, os horizontes para as meninas se ampliaram ainda mais, com a oportunidade de alistamento voluntário feminino. O Exército Brasileiro publicou no início deste ano que as primeiras voluntárias, com 18 anos completos e inscritas ano passado, se apresentaram em organizações militares de 14 cidades de diferentes regiões do país no mês de janeiro para a fase de Apresentação Geral, em que confirmaram o desejo de servir e recebem informações sobre as próximas etapas. Mais de 33 mil mulheres se alistaram e 1.010 serão incorporadas como soldados em 2026.
Com a sua experiência, Carol freia um pouco as expectativas aceleradas das meninas que estão empolgadas com essa nova oportunidade. Para quem quer seguir carreira militar, ela explica que o alistamento não é uma alternativa viável, já que não garante futuro na área e rouba tempo de estudo para concursos, que são limitados pela idade. Carol afirma que “por mais que elas sejam as melhores no quartel através do processo de alistamento, existe um limite de oito anos e depois o pessoal vai embora. Não é algo que vai garantir para elas uma carreira. Acredito que muitas estão indo com essa ideia de que vai se alistar e vai ser militar para o resto da vida. Isso não é verdade”.
Entretanto, para quem precisa auxiliar nos gastos financeiros da casa e quer ter a experiência para entender se é o que quer pra vida, faz todo o sentido se arriscar. “Eu digo que todo mundo tinha que passar pelo menos por um campo militar na vida, porque a gente aprende muitas coisas ali, dá valor a muita coisa e o militarismo fica gravado na gente para o resto da vida. Por mais que a pessoa saia do exército depois, ela fica diferenciada, respeito e disciplina são alguns pilares que a gente segue que ficam para vida”, aconselha.
Algumas dificuldades enfrentadas
Quanto ao preconceito de gênero no campo militar por mulheres exercerem um papel que majoritariamente é realizado por homens, Carol conta que não sente essa discriminação e que não existe essa diferenciação nos treinamentos e tratamento concedido às mulheres. Vez ou outra apenas, em alguma situação de campo em que não conseguem montar barraca e precisam dormir no relento, por exemplo, e algum homem sugere buscar o alojamento para as mulheres, ela bate o pé por não querer ser tratada com diferença. “Fui formada igual você, se você vai dormir no relento, eu vou dormir no relento”, argumenta e responde decidida para quem sugere um tratamento diferenciado para mulheres militares.
Às vezes ainda escuta comentários que os testes e treinamentos para as mulheres são mais fáceis, vindo de alguém que se formou apenas junto com homens, mas ela garante que não é verdade. “Infelizmente, como em qualquer lugar, tem algumas pessoas que sujam a imagem, mas isso tem em qualquer lugar, tem em qualquer profissão”, defende.
Ajudando outras mulheres a sonharem
Entusiasmada com a carreira, Carol leva essa paixão, que brilha nitidamente em seus olhos e foi ocupando espaço de pouco a pouco em seu coração, para mais mulheres através das redes sociais. Quando era adolescente se interessava pelos assuntos da mãe, que trabalha com estética, e gravava conteúdos para internet divulgando as maquiagens. Quando entrou para a vida militar, continuou se dedicando às redes sociais, mas agora com conteúdo mais voltado ao militarismo e distribuindo dicas às mulheres que se preparam para essa carreira.
Além de muitos conteúdos no Instagram e TikTok, que somam mais de 50 mil seguidores, ensinando quais objetos levar na mala e qual a melhor forma de prender um cabelo longo, castanho e liso como o dela em um coque permitido para o trabalho militar, também deixa alguns conselhos de irmã mais velha para meninas que sonham com a vida que ela já está construindo. “O que mais me tocou como militar foram as coisas que eu aprendi a valorizar, como hierarquia, disciplina, o respeito ao próximo […] que elas levem isso para a vida delas, toda a experiência, tanto as experiências positivas quanto as negativas que elas venham a passar, que elas consigam tirar o melhor dos dois mundos”, deseja para as futuras militares.
Através dessa influência que Carol dissemina nas redes sociais e de outras mulheres que também optaram pelo militarismo, aliada a portas abertas para esse gênero cada vez mais, futuramente, quando surgir a pergunta de o que as crianças querem ser quando crescerem em uma roda infantil, mais meninas poderão dizer: “eu quero ser militar, igual minha mãe!”.



