Número de mortes por decorrência do câncer do colo do útero cresce no Brasil

In Saúde

Os principais fatores desse aumento de óbitos incluem desinformação, falhas no rastreamento e desigualdade no acesso aos serviços de saúde. 

Raíssa Oliveira

O câncer do colo do útero é o terceiro tipo de tumor mais incidente entre mulheres no Brasil e, apenas no ano passado, provocou a morte de 20 mulheres por dia no país, de acordo com o Ministério da Saúde, totalizando mais de sete mil óbitos em 2025. Na tentativa de reduzir esses dados, o “março lilás” é um período de conscientização sobre esse tema, uma campanha nacional que busca informar sobre a prevenção e o combate ao câncer de útero.

Segundo uma estimativa do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o triênio de 2026 a 2028 alcançará 19,3 mil novos casos de câncer do colo do útero por ano, um número superior ao triênio anterior em que a estimativa era de 17 mil. Além desse dado, o cenário geral sobre o  câncer é ainda mais amplo porque, para o mesmo período, o INCA projeta cerca de 781 mil novas incidências de tumores por ano no Brasil, 10% a mais em relação ao triênio anterior.   

O que é o câncer do colo do útero

O câncer do colo do útero é um tumor que se desenvolve na parte inferior do útero, causado pela infecção do vírus HPV, que é sexualmente transmissível. A maior parte das pessoas têm contato com esse vírus no decorrer da vida e normalmente é eliminado naturalmente, segundo informações divulgadas pelo Instituto Benjamin Constant (IBC). Entretanto, caso essa infecção persista, após anos podem aparecer lesões que podem ocasionar o câncer.

Juliana Teixeira é ginecologista e embasa essa informação afirmando que existem evidências científicas que mais de 80% das mulheres vão entrar em contato com esse vírus. 

Falhas no rastreamento do tumor

A ginecologista Monique Mion esclarece que a alta mortalidade do câncer do colo de útero no Brasil se deve ao diagnóstico tardio do tumor, muito por conta da desigualdade no acesso aos serviços de saúde e desinformação quanto ao tema. A médica diz que “é uma doença com evolução lenta e altamente prevenível, mas muitas mulheres ainda não realizam exames de rastreamento regularmente”. Monique também compartilha que ainda quando as mulheres procuram pelas consultas preventivas, existem falhas na cobertura e na qualidade desse rastreamento, seja pela eficácia do exame papanicolau, atraso no encaminhamento de casos suspeitos e dificuldade de acesso ao tratamento em tempo.

Sharon Pucinelli sentiu na pele esses problemas de identificação do vírus. Apesar dela ter acesso aos serviços de saúde particular com convênio médico e realizar o pré-câncer regularmente, descobriu tarde a infecção e foi diagnosticada com câncer do colo do útero. Foi quando ela trocou de médica para colocar o DIU, método contraceptivo intrauterino, que precisou refazer os exames que havia feito apenas nove meses antes e acredita que a médica anterior não percebeu o risco. Alguns exames e colposcopia com biópsia fecharam o diagnóstico já no segundo estágio do tumor, quando o câncer se espalha além do colo. 

Sharon precisou fazer uma histerectomia radical, ou seja, a retirada do útero e os ligamentos que envolvem esse órgão, além de retirar um ovário que estava com um cisto hemorrágico. O tratamento finalizou após cinco sessões de quimioterapia, 25 de radioterapia e cinco de braquiterapia. “Foi difícil, principalmente depois da metade da radioterapia em diante, minha área da pelve sofreu muito a radiação. Fiquei com queimaduras na uretra e lido até hoje com a retite, uma inflamação no intestino”, relata. 

Apesar de acreditar que ficou bem psicologicamente durante todo o processo, compartilha que precisou se adaptar ao seu novo normal. “Muita coisa mudou, entrei na menopausa depois do tratamento, também fiquei com sequelas intestinais pós tratamento com radioterapia. Não parei de trabalhar e foi bem intenso e triste todo o processo”, esclarece. 

Acesso aos serviços de saúde

De acordo com a estimativa do INCA para este triênio, o câncer do colo do útero ocupa a segunda posição entre os mais incidentes em mulheres nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, atrás apenas do câncer de mama. A taxa de incidência no Norte, com 22,79 casos por 100 mil mulheres, é quase o dobro do Sudeste, com 14,06. O estado do Amazonas tem a taxa mais alta do país, com 28,7. A médica Monique argumenta que essa desigualdade regional reflete principalmente desigualdades estruturais de acesso aos serviços de saúde.     

Ela explica que na região Norte, por exemplo, há maior dificuldade de acesso aos serviços básicos de saúde, como exames preventivos e acompanhamento contínuo. A médica garante que as “questões geográficas, como longas distâncias e áreas remotas, dificultam a realização periódica deste rastreamento. Também há uma menor cobertura vacinal contra o HPV em algumas áreas, além de limitações na infraestrutura de diagnóstico e tratamento”.

Monique entende que o Brasil precisa enfrentar muitos obstáculos para reduzir esses altos números de taxa de mortalidade, incluindo ampliação do acesso ao rastreamento organizado e de qualidade, melhoria da cobertura da vacinação contra o HPV, redução do tempo entre diagnóstico e início do tratamento e fortalecimento da atenção básica, especialmente em regiões vulneráveis, além do combate às desigualdades sociais. 

Métodos de prevenção e eficácia dos exames 

A ginecologista Juliana explica que, por ser uma infecção sexualmente transmissível, apesar do preservativo auxiliar a evitar a transmissão, não garante que o contato com o vírus não exista totalmente. Ela afirma que o único método que previne realmente é a vacinação contra o vírus causador da infecção, o HPV. Além disso, a regularidade dos exames preventivos, como o papanicolau, garante que a infecção seja detectada cedo. 

O papanicolau é o primeiro e mais tradicional exame que surgiu para detectar alterações nas células do colo do útero, que podem progredir para o câncer. É um exame ginecológico utilizado desde 1980 no Brasil em que o médico colhe amostras do tecido do colo uterino para identificar lesões pré-cancerígenas. “Mas hoje a gente sabe que quem causa essas lesões é o HPV, então por que não testar primeiro o HPV e se a pessoa tiver o vírus, aí sim fazer o papanicolau?! Se vier negativo, a gente logicamente sabe que o papanicolau vai vir normal também”, esclarece a médica Juliana. 

Com esse pensamento, surgiu o teste de DNA-HPV, que é mais sensível e detecta a presença do vírus antes mesmo de evoluir para uma lesão, podendo ser realizado até através de autocoleta. Juliana explica que atualmente os especialistas têm uma preferência em começar o rastreio do câncer pelo teste de HPV e se vier alterado, realizar o papanicolau. “Só que esse teste é um exame que até então era mais inacessível e mais caro, alguns convênios não aceitavam, o custo dele é maior, não tinha no SUS. Então, por isso que o papanicolau, que era um exame mais barato, era o escolhido”, pondera.  

Entretanto, a partir de maio do ano passado, o novo teste molecular começou a ser oferecido pelo SUS e o Ministério da Saúde implementou o exame gradualmente, que de acordo com a médica é menos invasivo e pode ser feito até por autocoleta. “A meta é que aos poucos a gente vá substituindo, começando o rastreio pelo HPV e, nas mulheres que o HPV vier alterado, aí sim a gente faz o papanicolau tradicional”, conclui a médica Juliana. 

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