Transtornos mentais atingem mais de 12% das crianças no Brasil

In Saúde

Estudo da UFRGS mostra que 1 em cada 8 crianças brasileiras de 5 a 9 anos já tem um transtorno mental diagnosticável.

Luisa Oliveira

Uma em cada oito crianças brasileiras de 5 a 9 anos, já convive com algum transtorno mental diagnosticável, segundo estudo feito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) publicado no último mês na revista científica The Lancet Regional Health – Américas. A pesquisa ainda afirma que as crianças têm mais chance de conviver com algum grau de incapacidade causada pelo transtorno do que por qualquer doença física antes mesmo de completar dez anos. 

O estudo mostra que 12,06% das crianças de 5 a 9 anos já possuem algum transtorno mental, na maior parte das vezes ansiedade. Entre 10 e 14 anos o índice sobe para 18,81% e segue crescendo até a vida adulta jovem, ocupando o primeiro lugar de incapacidade até os 29 anos. Nas duas primeiras faixas etárias, a carga de transtornos mentais em números absolutos é maior entre os meninos, um padrão que só se inverte a partir dos 15 anos, alterando para o maior número de meninas com ansiedade. Essa é a idade em que a depressão começa a aparecer e ocupar o segundo lugar de transtorno mental mais comum entre os jovens brasileiros.

Diagnósticos precipitados

Para a psicóloga e neuropsicóloga infantojuvenil Gabriela Magrini, é preciso cautela antes de tirar conclusões precipitadas sobre esse salto nos diagnósticos. “É importante separar duas coisas, o aumento da identificação dos transtornos e um possível aumento real do sofrimento psíquico das crianças”, pondera. Segundo ela, o acesso mais amplo a profissionais especializados e o avanço no conhecimento sobre neurodesenvolvimento fazem com que condições que antes passavam despercebidas sejam identificadas mais cedo, o que não significa, necessariamente, mais sofrimento do que antes.

Só em São Paulo, dados da Secretaria de Estado da Saúde mostram que foram realizados 1,2 milhão de atendimentos ambulatoriais para crianças de 5 a 9 anos apenas em 2025 com problemas mentais. No mesmo estado, um levantamento da Associação Paulista de Medicina apontou que os atendimentos por saúde mental no SUS para essa faixa etária subiram 50% entre 2023 e 2025, reforçando o número de 98,3% de aumento nas internações psiquiátricas entre 2020 e 2025 já registrado pelo estudo da UFRGS.

Diante desse salto nas internações, Magrini explica que precisamos ter cuidado para não transformar qualquer comportamento raro e  complicado da criança em um diagnóstico.”É preciso compreender a frequência, a intensidade, a duração desses comportamentos e, principalmente, o impacto que eles causam na vida da criança”, completa.

Crise em todas as idades

O problema não fica restrito à primeira infância. Uma revisão de evidências científicas conduzida pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), em parceria com o Global Center for Child and Adolescent Mental Health, compilou 734 estudos e concluiu que cerca de 20% dos jovens brasileiros entre 10 e 19 anos enfrentam algum tipo de transtorno mental. O número é próximo ao estimado pelo relatório Situação Mundial da Infância 2021, do Unicef, segundo o qual quase um em cada seis meninos e meninas de 10 a 19 anos no Brasil vive com algum transtorno mental, parcela mais exposta a automutilação, depressão e suicídio.

A psicóloga infantojuvenil Sabrina Pani vê esse crescimento como parte de um fenômeno mais amplo que não depende especificamente da criança, mas do ambiente e pessoas que se tratam de exemplo à criança. Para ela, “não são questões individuais, são sim socioculturais que vão produzir as dificuldades que as crianças enfrentam”.

A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSe), do IBGE, divulgada em 2026 após entrevistar mais de 118 mil adolescentes em todo o país, encontrou um dado ainda mais duro, 3 em cada 10 estudantes de 13 a 17 anos afirmaram se sentir tristes sempre ou na maioria das vezes, e uma proporção semelhante já teve vontade de se machucar de propósito.

Outro estudo publicado na The Lancet Regional Health – Américas, fruto de parceria entre o Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia) e pesquisadores de Harvard, mostrou que a taxa de suicídio entre jovens brasileiros de 10 a 24 anos cresceu 6% ao ano na última década, ritmo bem acima do crescimento médio geral de mortes no país, de 3,7% ao ano.

Magrini insiste que o diagnóstico não pode apagar quem é a criança “A criança não deve ser reduzida àquilo que ela tem dificuldade de fazer. Ela continua sendo uma criança com interesses, habilidades, personalidade e potencialidades. “Quando a família, a escola e os profissionais conseguem enxergar a criança para além do diagnóstico, o acompanhamento tende a ser muito mais saudável”, completa.

A infância na era das telas

Segunda a psicóloga infantil, Luciana Ruff, as crianças desta última geração são prejudicadas diariamente pela hiperconectividade, ao não aprenderem a encarar momentos que estão sozinhos. “O ambiente/contexto atual dessa geração tem muitos mais estímulos, acesso precoce às telas e redes sociais, uma maior velocidade de acesso às informações e, principalmente, menos momentos de tédio e espera”, descreve a psicóloga. 

Para Luciana, essa combinação prejudica diretamente uma habilidade central do desenvolvimento infantil, a tolerância à frustração. “Se toda vez que uma criança fica frustrada, entediada ou contrariada, lhe é oferecida uma tela, ela tem menos oportunidades de aprender essa tolerância”, explica. Luciana conclui que a tecnologia em si não é o maior vilão, mas sim, a maneira como vem sendo usada pelas crianças.

A psicóloga, Gabriela Magrini também explica  que a hiperconectividade sozinha não explica todo o aumento da ansiedade infantil. Para ela, a saúde mental resulta da combinação entre fatores individuais, familiares, sociais e ambientais, e o uso problemático das telas costuma ser mais sintoma do que causa isolada, já que crianças ansiosas ou entediadas também recorrem às telas como forma de regulação. “O principal desafio hoje não é simplesmente tirar a tela da infância, mas saber monitorar, saber ensinar a criança a construir uma relação saudável com a tecnologia”, resume.

Magrini reforça que existe uma diferença de infância e comportamentos entre as gerações antigas e a atual geração alpha a respeito do uso das telas e saúde mental. Mas pondera que o foco dos problemas não deve estar só na quantidade de tempo de tela. “A gente precisa olhar muito para a qualidade desse uso, e não apenas para a quantidade”, diz.

A psicóloga infantojuvenil Sabrina Pani explica que quando crianças ficam presas em telas, inclusive nos momentos livres, prejudica-se o desenvolvimento de funções como atenção, concentração e memória, que dependem da brincadeira livre e da interação com pessoas e objetos do mundo real. Sabrina também aponta um lado pouco discutido do problema, o das próprias famílias, que usam a tecnologia como auxiliar no momento em que não estão disponíveis. “É até uma segurança para alguns adultos que as crianças fiquem mesmo nas telas, porque daí os pais que estão fora não precisam se preocupar”, observa.

Quando o sofrimento não vira palavra

Um dos maiores desafios apontados  pelas psicólogas  é que crianças pequenas raramente conseguem verbalizar que não estão bem, o que exige dos adultos um olhar mais atento ao comportamento. Segundo Sabrina Pani, mudanças de comportamento, choro frequente, regressão, medo excessivo e dificuldade de ficar sozinha são sinais que merecem atenção, assim como a dificuldade de brincar e de se relacionar com outras crianças.

A psicóloga, Luciana Ruff, reforça que quando a criança ainda não tem repertório emocional para nomear o que sente, cabe ao adulto criar esse canal de comunicação e observar os comportamentos infantis. “Uma mudança no padrão de sono, na alimentação, no desempenho escolar, uma irritabilidade que vai ficando mais presente, isolamento ou evitação de atividade merecem ser investigados com atenção”, explica.

O ambiente também precisa de cuidado

As especialistas são unânimes ao afirmar que o sofrimento infantil não pode ser entendido apenas como uma questão individual. “Uma criança não se desenvolve isoladamente”, diz Luciana Ruff. Segundo ela, a disponibilidade emocional dos adultos é decisiva para que a criança desenvolva, aos poucos, seus próprios recursos de regulação emocional.

Sabrina é enfática sobre o papel dos adultos quando os sinais de sofrimento são ignorados. “A gente precisa cuidar para que ela volte a encontrar pessoas de referência e afetuosas e que não cometam violências contra ela”, seja em casa, na escola ou entre os pares”, diz a psicóloga. Sabrina ainda enfatiza que um ambiente cuidadoso protege a criança e sua mente. “Proteger a criança é proteger e cuidar desse ambiente em que ela vive”, finaliza.

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