Pesquisa da OCDE revela que apenas 47% das famílias brasileiras mantêm o hábito constante de leitura com os filhos na primeira infância.
Renata Afonso
Um estudo internacional recente da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgado pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal revelou que no Brasil 53% das famílias brasileiras raramente ou nunca leem para suas crianças. Em contrapartida, apenas 14% dos responsáveis afirmam realizar a leitura compartilhada de três a sete vezes por semana.
Os números acendem um alerta sobre os impactos da ausência desse hábito no desenvolvimento infantil e reforçam a importância da participação familiar na formação de leitores nos primeiros anos de vida.
O levantamento faz parte da pesquisa do International Early Learning and Child Well-being Study (IELS), que avaliou a aprendizagem e bem-estar na primeira infância no Brasil. O estudo ouviu famílias e avaliou crianças na pré-escola nos estados do Ceará, Pará e São Paulo e analisou aspectos ligados ao desenvolvimento cognitivo, emocional e social das crianças, além das desigualdades existentes no acesso a estímulos importantes para a aprendizagem para as crianças.
Os dados também revelam que a leitura compartilhada dentro de casa está diretamente relacionada ao desenvolvimento das crianças em áreas como vocabulário, compreensão oral, memória e autorregulação emocional, crianças que convivem com práticas frequentes de leitura apresentam maior facilidade para se comunicar, interpretar emoções e desenvolver habilidades sociais.
A importância da leitura desde os primeiros anos
Para a educadora e mediadora de leitura Daniela Reis, o contato com os livros vai muito além da alfabetização de acordo com a educadora, quando a criança tem contato com a literatura infantil, ela constrói um senso de imaginação, consegue visualizar cenários, emoções, sensações e objetos. “A ausência da leitura impacta justamente nesse contato com a arte da palavra, com o som da palavra e com o brincar que se expressa por meio dela”, explica.
O estudo da OCDE também evidencia um cenário cada vez mais marcado pelo uso precoce das telas. Nesse contexto, a psicopedagoga Alcione Pineda aponta que o papel dos pais e responsáveis torna-se ainda mais essencial na construção de uma rotina saudável para o desenvolvimento infantil e sustenta o fato de que a tela não substitui a interação humana. “Geralmente, crianças com uma exposição frequente a telas apresentam vocabulário reduzido e dificuldades comunicativas. Possuem maior dispersão e dificuldades de concentração”, frisa.
A profissional acrescenta que a criança precisa de experiência concreta como brincar com um livro, entender uma imagem, manipular e interagir para se desenvolver bem.
A educadora Daniela acrescenta que os pais têm um papel muito importante no sentido de estabelecer a leitura como parte da rotina desde o nascimento do bebê. “Mesmo antes de enxergarem perfeitamente, as crianças podem ouvir histórias, músicas e ter contato com diferentes gêneros textuais. Além disso, pais que leem para seus filhos inspiram futuros leitores”, afirma.
A leitura compartilhada fortalece vínculos afetivos
Daniela cita que além dos benefícios relacionados à aprendizagem e à linguagem, a leitura compartilhada também fortalece os vínculos afetivos entre pais e filhos. O momento dedicado à leitura pode representar acolhimento, atenção e demonstração de carinho. “Quando os pais param para ler para os filhos, demonstram que reservaram um tempo especialmente para isso. A criança percebe esse cuidado, ouve a voz carinhosa dos pais, sente-se acolhida. É uma demonstração de afeto” afirma
A professora da educação infantil Josianne da Pedra também acredita que a leitura compartilhada possui um impacto profundo na relação entre pais e filhos. Para ela, o hábito fortalece os laços familiares e cria memórias afetivas importantes para o desenvolvimento emocional da criança. “É importante ter esses momentos para fortalecer vínculos, memórias afetivas entre pais e filhos. Em uma rotina corrida, esses momentos se tornam espaços importantes de conexão e aprendizado”, ressalta.
De acordo com Josianne, a leitura também pode ser utilizada como ferramenta para abordar temas importantes do cotidiano infantil, como empatia, amizade, respeito e controle das emoções. “A partir das histórias, surgem oportunidades para conversar, orientar e ajudar a criança a compreender sentimentos e comportamentos de forma mais leve e natural”, explica.
A influência dos pais na formação de leitores
A influência do exemplo familiar é um dos principais fatores para a formação do hábito da leitura. De acordo com Josianne, as crianças aprendem observando os comportamentos dos adultos à sua volta. “Quando a leitura faz parte da rotina familiar, aumentam significativamente as chances de a criança construir uma relação positiva com os livros e se tornar uma leitora autônoma e interessada no futuro”, destaca.
Daniela conta que o seu filho Joaquim, de dois anos e nove meses, já demonstra um vocabulário avançado para a faixa etária e grande sensibilidade emocional, resultado do contato frequente com os livros. “Hoje ele conversa conosco, demonstra suas vontades, emoções e preferências a partir do vocabulário que construiu. Além disso, é uma criança muito sensível e empática, a partir do que lê e ouve”, declara Daniela.
Josianne também compartilha a experiência com o filho Pedro, de quatro anos, que mantém contato com os livros desde muito pequeno. Segundo ela, a leitura estimulou não apenas a fala e a comunicação da criança, mas também a criatividade e a imaginação. “Hoje percebemos como o Pedro interpreta personagens, muda a entonação da voz e cria situações com muita naturalidade”, conta.
Mesmo diante da rotina corrida do dia a dia, ela afirma que a família procura reservar momentos para a leitura sempre que possível, por entender a importância de manter esse interesse vivo. Josiane enfatiza que ver o desenvolvimento acontecendo é muito gratificante, porque percebe que a leitura vai muito além da aprendizagem, mas também contribui para a criatividade, comunicação, imaginação e para a construção do gosto por aprender. “A nossa expectativa é que esse amor pelos livros continue crescendo ao longo da vida dele”, finaliza.



