De acordo com o IBGE, 1 quarto dos imóveis são alugados enquanto a participação de imóveis quitados diminui.
Melissa Conselho
Segundo um estudo recente realizado pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), nos últimos 9 anos houve um aumento de 54,1% de imóveis alugados no Brasil. No ano de 2016, eram 12,2 milhões de domicílios nessa condição, já em 2025 houve um salto, modificando o número para 18,9 milhões.
Com o aumento de aluguéis nos últimos 9 anos, a participação dos imóveis quitados caiu 6,5 pontos, passando de 66,7% para 60,2%. Ou seja, um quarto dos domicílios no Brasil são alugados, o maior patamar na história do IBGE. Mas ainda abaixo de países desenvolvidos como Estados Unidos (31%), União Européia (34%) e Suíça (57%).
Além do avanço dos aluguéis, os dados do Pnad mostram que a maioria das moradias no Brasil são de casas com 65,8 milhões, ou seja, 82,7%. Já os apartamentos somam 13,6 milhões, equivalente a 17,1%. No entanto, o ritmo de crescimento é diferente. Entre 2016 e 2025, o número de apartamentos avançou 48,7%, enquanto o de casas cresceu 14,2%, aumentando a verticalização avançada no país.
Aumento dos aluguéis e a dificuldade de acesso à casa própria
De acordo com o consultor econômico financeiro Iossenir Nunes, o crescimento de aluguéis de imóveis residenciais no Brasil está diretamente ligado a três fatores principais. O aumento constante de juros, as barreiras de acesso ao crédito e o comportamento da população. Além disso, com o financiamento mais caro, muitas famílias adiam a compra e optam pelo aluguel.
Larissa Nascimento, inquilina de aluguel há 5 meses, destaca que o valor do aluguel é a conta principal em sua casa. E que apesar de desejar financiar seu próprio imovel, existe uma dificuldade entre o custo de vida e a média salarial do trabalhador brasileiro. “Me faz repensar qual a melhor forma para executar baseado na situação econômica do país e a direção que está tomando”, reflete.
O economista afirma que devido aos juros elevados, aumento do preço dos imóveis e a defasagem na renda familiar, a taxa de aluguel cresce. Os bancos estão mais cautelosos na compra e construção, exigindo maior entrada, comprovação de renda e outras taxas, “o que exclui uma parcela significativa da população do mercado”, informa.
Iossenir continua reforçando que o aumento dos aluguéis pode afetar a economia do país pois quando o custo com moradia sobe, sobra menos renda para consumo em outros setores, como comércio e serviços. Isso afeta diretamente o processo de crescimento da economia. Por outro lado, o setor de locação imobiliária acaba se fortalecendo, atraindo investidores e movimentando esse segmento específico.
Verticalização e a expansão de imóveis compactos
Segundo o Pnad, a maior parte das moradias no país continua sendo de casas, com 65,6 milhões ou 82,7%. Os apartamentos somam 13,6 milhões, equivalentes a 17,1%. No entanto, o ritmo de crescimento é bastante diferente. Entre 2026 e 2025, o número de apartamentos avançou 48,7% , enquanto o de casas cresceu 14,2%.
A Engenheira Civil Gabriela Araújo concorda com os dados do Pnad e relata que antigamente, o sonho da família brasileira era ter uma casa própria com quintal, porém com a nova dinâmica familiar, as famílias são menores, há mais pessoas morando sozinhas, e a rotina está mais acelerada.
Além disso, ela destaca alguns pontos do aumento da verticalização brasileira. Para ela, a verticalização e a expansão dos imóveis compactos é a solução mais viável nas grandes metrópoles. Além disso, crescer horizontalmente, moradias em casa, pode gerar um colapso logístico.
“A terra urbana é um recurso finito.Se a população cresce e todos querem morar perto dos centros de emprego, comércio e serviços, a única direção sustentável para crescer é para cima”, complementa Gabriela.
A engenheira também destaca a expansão de imóveis compactos como uma necessidade que gerou a tendência de mercado. “Com o preço da terra urbana nas alturas e os custos de construção elevados, criar apartamentos de 25m² a 35m² foi a saída da engenharia e da arquitetura para manter o valor final do imóvel acessível ao bolso do consumidor médio”, declara.
Aos olhos da engenharia, o mercado envelopou isso como uma tendência de “estilo de vida minimalista” ou lifestyle dinâmico para jovens profissionais e investidores, sendo uma tendência para o público jovem profissional.
Vantagens e desafios das verticalização
Gabriela ressalta as vantagens e desafios da verticalização. Entre elas, está a otimização da infraestrutura. É muito mais barato e eficiente passar redes de água, esgoto, energia e fibra óptica para um prédio de 30 andares do que estender quilômetros de tubulações para atender a mesma quantidade de pessoas em casas espalhadas”, contribui a engenheira.
Além disso, a verticalização favorece a mobilidade urbana, pois concentra a população em regiões que podem ser melhor atendidas por sistemas de transporte público, como metrôs e ônibus, reduzindo a dependência do automóvel e a necessidade de longos deslocamentos.
Outro benefício apontado pela especialista é a preservação ambiental. Segundo a engenheira, o crescimento vertical ajuda a conter a expansão horizontal das cidades, evitando o avanço da ocupação urbana sobre áreas verdes, mananciais e regiões de preservação ambiental localizadas nas periferias.
Para Gabriela existem desafios sobre o aumento da verticalização, como a sobrecarga das redes de infraestrutura, já que a concentração de moradores em uma mesma região eleva significativamente a demanda por água, energia elétrica e serviços de esgoto, tornando necessário o redimensionamento das redes subterrâneas.
Outro desafio está relacionado à drenagem urbana.“Prédios costumam impermeabilizar o solo com garagens e pavimentação, aumentando o risco de enchentes se não houver sistemas de escoamento e caixas de retardo de cheias”, informa.
Além disso, segundo a engenheira, a verticalização pode contribuir para a saturação do sistema viário. “Mais moradores significam mais carros saindo da mesma rua nos horários de pico, exigindo estudos de impacto de vizinhança (EIV) profundos”, pondera.
A preparação das cidades brasileiras
Gabriela afirma que, em sua grande maioria, as cidades não estão preparadas no ritmo que deveriam. “Temos um passivo de infraestrutura muito grande no Brasil. Muitas cidades sofrem com redes de esgoto e drenagem da década de 1970 ou 1980 que já trabalham no limite”, garante.
Ela reforça que a verticalização só funciona bem quando é guiada por um Plano Diretor, lei municipal de planejamento territorial, atualizado e zoneamentos rígidos, como os eixos de estruturação urbana, que só permitem prédios altos colados a corredores de transporte público.
“Onde o mercado imobiliário avança sem que a prefeitura modernize a infraestrutura básica, vemos problemas crônicos de trânsito, falta de água e alagamentos,” encerra.



