71% da população tem voto influenciado pela taxa de educação

In Educação, Política

Pesquisa publicada pelo instituto Ideia aponta que a população prioriza candidatos com propostas voltadas à educação, na valorização dos professores, alfabetização, ensino técnico e ensino integral. 

Melissa Conselho 

A atuação dos governos na educação influencia na escolha de 71% da população em relação aos votos eleitorais e 83% defendem que a educação está entre as três prioridades do governo no próximo mandato, segundo a pesquisa publicada do Instituto Ideia, em setembro de 2026. Durante a pesquisa, 20 mil pessoas, nos diferentes estados brasileiros, apontaram a valorização dos professores, alfabetização, ensino técnico, ensino integral, uma das prioridades educacionais. 

O levantamento foi realizado entre maio e julho de 2026, com 20 mil brasileiros a partir de 16 anos, nos 26 estados. Os dados mostram que a população reconhece a importância da educação e espera prioridade sobre o tema na agenda dos próximos governos, buscando a melhora das escolas públicas e a valorização do professor . 

Qualidade das escolas públicas no Brasil 

Segundo a pesquisa publicada pelo Instituto Ideia, 45% dos brasileiros avaliam como ótima ou boa a qualidade das escolas públicas de seus estados, porém essa percepção varia entre as regiões do país. Estados como Santa Catarina (60%) e Ceará (59%) registram os maiores percentuais de avaliação positiva. Na outra ponta, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e Roraima apresentam os menores índices, entre 31% e 36%. 

Fernanda Silva, mãe de três filhos estudantes da rede pública de ensino, afirma que as escolas contam com profissionais que se esforçam muito, mas ainda precisam avançar, principalmente na inclusão e no acompanhamento de crianças atípicas. Para Fernanda, uma escola de qualidade precisa ter bons professores, segurança, disciplina, estrutura adequada e que respeite as diferenças.  

A pesquisa também aponta que 49% dos brasileiros entrevistados acreditam que a qualidade das escolas públicas de seus estados melhorou nos últimos quatro anos. O Nordeste apresenta a percepção mais positiva, com 56%, enquanto no Sudeste o índice é de 43%. Entre os estados, Alagoas (66%), Ceará (65%) e Sergipe (65%) registram as maiores proporções de pessoas que percebem uma melhora na educação.

O diretor executivo do Todos Pela Educação, Olavo Nogueira Filho, fala sobre a taxa de educação entre os estados mais desenvolvidos do Brasil. “Chama atenção também a percepção em estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Distrito Federal, que, apesar de estarem no grupo dos mais ricos, não vêm apresentando avanços consistentes nos resultados educacionais e estão entre aqueles em que a avaliação sobre a evolução recente da educação é mais crítica.”, afirma. 

Dificuldades da educação brasileira

Ainda de acordo com a pesquisa do Instituto, apenas 25% dos brasileiros concordam que as crianças estão aprendendo a ler e escrever no ritmo esperado, enquanto 27% consideram que a escola pública prepara bem os jovens para o mercado de trabalho.  

Dados do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) mostram que 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais, ou seja, apresentam dificuldades para compreender textos, interpretar informações e utilizar a leitura, a escrita e a matemática em situações do cotidiano. O índice permanece no mesmo patamar registrado em 2018, evidenciando a dificuldade de avançar na alfabetização funcional da população.

Além desses desafios, a professora Kátia Lopes, que atua no ensino rural, relata as dificuldades enfrentadas em turmas multisseriadas, nas quais alunos de diferentes anos estudam juntos. ”Tenho que preparar 3 planos diferentes para a mesma hora”, ressalta. Outro ponto destacado pela professora é a participação dos alunos nas atividades em casa. Segundo ela, alguns estudantes precisam ajudar os pais e muitos deles não são alfabetizados.“O aluno falta porque tem que ajudar os pais, e muitos pais não são alfabetizados. Por isso, se o aluno falta dois dias na semana, o processo de alfabetização quebra”, explica.

Fernanda também fala, como mãe, sobre as dificuldades no processo de alfabetização. “Acredito que algumas crianças conseguem acompanhar, mas outras precisam de um acompanhamento mais individualizado. Nem todas aprendem no mesmo ritmo, e isso precisa ser respeitado”, explica. Ela conta que um de seus filhos só foi alfabetizado no 4º ano. “Ele não sabia ler nem escrever como as outras crianças. Por isso, ficou retido na mesma série por dois anos. Isso aconteceu porque teve uma professora que teve esse olhar para ele, e isso fez com que ele aprendesse”, relata.

Professor como decisão eleitoral   

A valorização dos profissionais da educação ocupa lugar central entre as medidas apontadas como necessárias para melhorar a qualidade do ensino, de acordo com a pesquisa . Entre os entrevistados, 53% defendem a melhoria dos salários e das condições de trabalho dos professores, enquanto 37% apontam a necessidade de melhorar a formação desses profissionais. 

Kátia Lopes, professora da rede pública no ensino rural, também retrata as dificuldades enfrentadas pelos profissionais da área. Segundo ela, apesar de haver uma relação próxima e de reconhecimento por parte das famílias, as escolas ainda enfrentam problemas estruturais. “As escolas continuam com estrutura precária e salário igual, sem adicional por ser de difícil acesso, prejudicando o trabalho do professor”, afirma.

Fernanda também considera que os professores têm uma responsabilidade muito grande e que, apesar dos avanços, ainda são necessárias melhores condições de trabalho, formação e apoio, principalmente para lidar com a inclusão.

A cientista política, Tai Scheffer, explica o motivo da valorização dos professores ser uma pauta eleitoral. “Todo mundo teve professor. Muita gente tem um na família. É uma pauta que tem rosto, que as pessoas entendem na hora, sem precisar de explicação”, destaca. Além disso, a cientista ressalta que esta proposta alcança diferentes grupos de eleitores. “Quem pensa em salário, quem pensa em qualidade do ensino, quem pensa em respeito dentro da sala de aula. O perigo é justamente esse: “valorizar o professor” cabe em qualquer discurso”, orienta. 

Quem é responsável pela educação? 

A cientista política Tai Scheffer também aponta que um dos problemas é a dificuldade do eleitor em identificar quem é responsável pelos resultados da educação, já que as atribuições são divididas entre diferentes níveis de governo.  Segundo ela, a responsabilidade pela educação é distribuída entre municípios, estados e federação. No município, o dever vem das prefeituras que são responsáveis pela educação infantil e pelos anos iniciais do ensino fundamental. No estado, suas principais obrigações são com o ensino médio e os anos finais do ensino fundamental; E no âmbito Federal, o governo atua no financiamento, na coordenação e na definição de políticas nacionais de educação.

“Como a responsabilidade é dividida, cada um joga a culpa no outro. E tem candidato que aproveita essa confusão para prometer coisas que nem é da competência do cargo que está disputando”, esclarece a cientista. Tai também explica que as diferenças na avaliação da educação entre os estados podem influenciar o voto regionalmente, principalmente nas eleições para governador. “O Estado que melhorou vira vitrine para quem está no governo. O Estado que piorou dá munição para a oposição”, complementa. 

Porém, segundo Scheffer, o eleitor nem sempre acompanha os índices educacionais do estado. A avaliação pode estar mais relacionada à experiência pessoal. “O eleitor não olha o índice do estado, ele olha a escola que conhece. Se a escola do filho está boa, ele acha que a educação vai bem, e vice-versa. Então, a forma como o governo comunica o resultado pesa quase tanto quanto o resultado em si”, explica.

O que o eleitor deve observar?

Segundo a cientista política Tai Scheffer, alguns indicadores podem ajudar a população a acompanhar as políticas educacionais. Entre eles estão a aprendizagem das crianças, principalmente em relação à leitura e à escrita na idade adequada, a permanência dos alunos na escola, as condições de trabalho e remuneração dos professores, e os investimentos realizados na área.

Ela também destaca a importância de comparar os resultados ao longo de todo o mandato, e não apenas em um ano específico. Outro ponto levantado por Tai é a necessidade de transformar a demanda por uma educação melhor em propostas concretas. Em vez de apresentar apenas a promessa de “melhorar a educação”, os governos podem estabelecer metas que permitam o acompanhamento pela população, com ações, prazos e recursos definidos.

A cientista política: “Uma boa proposta responde a três perguntas: o que vai ser feito, até quando e com que dinheiro. O candidato tem que detalhar, não é só para ganhar voto, mas para o eleitor poder cobrar depois. Se falta uma dessas três, ainda não é proposta, é intenção”, encerra. 

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