Saúde mental dos educadores entra em alerta no estado de São Paulo 

In Educação, Saúde

Pesquisa da APEOESP afirma que 97,6% dos profissionais da educação em São Paulo sofrem com doenças psicológicas.  

Luisa Oliveira

Uma pesquisa divulgada no último mês pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (APEOESP) em parceria com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), mostrou que 97,6% dos professores de ensino fundamental e médio afirmam que passam ou já passaram por algum tipo de sofrimento emocional e mental relacionado à rotina de trabalho. A pesquisa foi realizada entre os meses de dezembro de 2025 e março de 2026. 

Os profissionais registraram que seus piores sintomas são ansiedade, depressão, síndrome do pânico e distúrbio do sono. Esses problemas causaram um afastamento de 24,8% dos trabalhadores de seu emprego. A pesquisa também aponta que o transtorno com maior número de doentes é a ansiedade, que afeta 41% dos funcionários da rede estadual de educação. 

Sinais antigos

De acordo com dados do Centro de Informações Educacionais (CIEDU) da Secretaria Municipal de Educação, em 2013, as licenças médicas por enfermidade já correspondiam a uma parte expressiva das ausências docentes, oscilando entre 51,2% e 69,8% de todos os dias de afastamento, com índices mais severos entre professores da Educação Infantil. Esse desgaste ganhou contornos ainda mais nítidos em 2018, quando o levantamento do jornal Folha de S.Paulo, baseado no Portal da Transparência, a rede municipal registrou uma média de 62 afastamentos diários por transtornos mentais, totalizando cerca de 22 mil licenças no ano. 

A crise atingiu patamares sem precedentes no último ano, espalhando-se de forma estrutural por todo o território estadual. Dados obtidos pelo Centro do Professorado Paulista (CPP) via Lei de Acesso à Informação revelaram que, entre janeiro e setembro de 2025, a rede estadual atingiu a marca de 95 afastamentos diários por saúde mental, somando 25.699 licenças e mais de 911 mil dias fora das salas de aula. No mesmo período, uma pesquisa do Instituto de Matemática e Estatística (IME) da USP em conjunto com a Aprofem indicou que 63,5% dos professores municipais precisaram se afastar por motivos gerais de  saúde, sendo que 84% declararam sofrer de transtornos como ansiedade e depressão. 

Causa e consequência 

De acordo com a psicóloga especializada em burnout e trabalho, Carolina Tiseo,  profissões que envolvem contato intenso e contínuo com pessoas, alta demanda emocional e forte pressão por resultados tendem a apresentar maior risco para o desenvolvimento de transtornos mentais e a docência reúne todas essas características. Segundo ela, o desgaste é potencializado por fatores como turmas numerosas, violência escolar e excesso de demandas administrativas que, somados à sensação de baixa valorização profissional criam um ambiente de adoecimento crônico.

Carolina ainda explica que os quadros de ansiedade no ambiente escolar costumam estar diretamente ligados à sobrecarga de trabalho, jornadas extensas, falta de autonomia e exposição contínua a situações de alta responsabilidade. “Ambientes com alta pressão psicológica e baixa previsibilidade tendem a aumentar significativamente o risco de sofrimento emocional e sintomas ansiosos”, afirma.

Sobre a depressão relacionada ao trabalho, ela destaca que os fatores ocupacionais aparecem como importantes desencadeadores e mantenedores do quadro, diferenciando-a de outros tipos de depressão por essa relação direta com o contexto profissional.

A psicóloga também ressalta que não existe um tempo exato para que o adoecimento se torne clinicamente diagnosticável. Alguns educadores podem apresentar sintomas importantes após apenas alguns meses de exposição intensa, enquanto outros levam anos, e fatores como suporte institucional, rede de apoio pessoal e estratégias individuais de enfrentamento influenciam diretamente esse processo. 

“Do ponto de vista clínico, o diagnóstico não é definido pela quantidade de tempo trabalhado em determinado ambiente, mas pela presença, intensidade, frequência e persistência dos sintomas, além do impacto funcional na vida pessoal, social e profissional do indivíduo”, afirma Carolina. O que se sabe, no entanto, é que o risco de adoecimento aumenta significativamente quando há exposição prolongada a fatores de risco crônicos sem períodos adequados de recuperação, exatamente o cenário vivido pela maioria dos docentes da rede pública paulista. 

Ciclo vicioso entre os educadores

O médico psiquiatra Eduardo Mashimo alerta que o professor mentalmente adoecido carrega os prejuízos da saúde mental para todos os outros âmbitos da vida, “O indivíduo mentalmente doente devido a fatores profissionais levará os prejuízos em sua saúde mental para outros âmbitos de sua vida pessoal, incluindo as relações familiares e sociais, o autocuidado e a preservação de sua saúde física, suas atividades de lazer, intelectuais, acadêmicas, sua vida financeira e sua relação com a comunidade”.

Para ele, isso cria um ciclo vicioso: quanto mais o ambiente profissional deteriora esses aspectos externos, mais o profissional perde resiliência para se recuperar, tornando a saída desse ciclo cada vez mais distante. Mashimo aponta que além do desgosto profissional e da baixa remuneração, os professores ainda estendem suas jornadas para casa sem compensação financeira, acumulando um desgaste que vai muito além do horário de trabalho.

O psiquiatra também chama atenção para um fator que agrava profundamente o adoecimento da categoria, a mudança na relação entre educadores, alunos e famílias. Segundo ele, o docente deixou de ser visto como uma figura de referência para ser tratado como um prestador de serviços, estando sujeito inclusive à violência moral e física. “O professor, consciente de sua responsabilidade na formação de crianças e jovens, vai lentamente se distanciando da paixão idealista que o atraiu para a profissão”, afirma.

Para o especialista, é esse processo de perda de sentido que transforma o que deveria ser o cumprimento de uma missão em um fardo e, em muitos casos, em depressão e ansiedade clinicamente diagnosticável.

Medidas e soluções para melhorar a saúde mental

Com 534 mil afastamentos por transtornos mentais registrados em 2025 em todos os âmbitos trabalhistas e um impacto de R$ 964 milhões aos cofres do INSS, o governo federal atualizou a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que entrou em vigor no dia 26 de maio de 2026 e passou a exigir que empresas e órgãos públicos de todos os portes identifiquem, avaliem e controlem os chamados riscos psicossociais no ambiente de trabalho, categoria que inclui estresse crônico, assédio moral, burnout e violência ocupacional. 

Entre elas estão o Teleatendimento SEDUC-SP, que oferece atendimento especializado aos educadores paulistas, e o IAMSPE, que disponibiliza consultas presenciais e online para o acompanhamento da saúde mental dos servidores públicos. 

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